“Mãe, você me possuiu, mas eu nunca tive você”.
Essa letra tão popular, que explodiu na década de 1970, pela voz privilegiada do ex-beatle John Lennon. Ela quase me passou despercebida.
Em um dos raros instantes em que se presta atenção na letra, tomei um susto. Não só pelos clamores de John em altíssimo volume, suficiente para ouvir e observar um ídolo angustiado, mas implorar desesperadamente pelo amor da mãe, escancarando uma estranha paixão por ela.
Queridos leitores, já pensaram nisso?
John queixava-se.
Eu nunca lhe tive pra mim.
(I never had you)
Lembrei de Mariucha, minha amada mãe. Também não me achava amado o suficiente. Pura ganância.
Esse tipo de paixão eterna nunca é considerada suficientemente correspondida pela mãe. Como um Édipo perdido no tempo - que vergonha - eu enviava até bilhetinhos para a repartição dela. Nunca leu ou nunca me falou que leu. Tia Cecy, sabe de uma coisa, acho que lia escondida. Ou desejava isso.
John Lennon não esqueceu do pai. Musicou-o também. Não com a mesma ênfase ou amor explícito. Pelo menos não gritou, acho. Tal qual a letra de John, as bases psicanalíticas de Freud, em tese, fariam uma festa de genialidade, nunca jamais reproduzida.
Então.
O bebê já nasce exigindo a alteridade materna, É impossível para a maternagem ficar indiferente às determinações simbólicas dos bebês.
A peça musical passeia pelos inconscientes durante o processo analítico ou não. A famosa “transferência”.
O bebê e o paciente reagem, de um jeito ou de outro, cada um com a sua identidade. O processo analítico não tem começo nem fim.
Caros leitores, a indiferença é a pior insensatez e perversão. Portanto, o amor e a solidariedade são mais benéficas do que qualquer técnica terapêutica.
Mais que a paixão?
Dorian Gray, meu cão vira-lata, está revoltado com o Orçamento Secreto.