Como sabemos o pequenino e bravíssimo jornal “O Diário” foi escrito e impresso em um casarão tradicional adaptado com gosto. Durante décadas foi a maior - e única - publicação da rua mais central de Vitória, a Sete de Setembro.
Os habitantes da redação e da oficina e publicidade acomodavam-se esteticamente. Ocupando o porão da casa estavam as duas mágicas impressoras: Maura e Gilda em homenagem a duas repórteres.
O jornalismo lá ficava à esquerda de quem subisse a rua, ladeira acima, e ia dar no morro da Piedade. Denunciou, com todos os riscos e manhas, as atividades do “Esquadrão da Morte”, uma gangue bandida cheia de figuraças — como permanece até hoje em todo o Brasil.
A equipe do “maior jornal da Rua Sete” foi obrigada algumas vezes a dormir na redação ou onde desse sob ameaças. O proprietário não era rico, mas sim a própria criatividade. Vindo de sua terra natal, Barra de São Francisco, ao norte do Espírito Santo, não hesitava em contratar os melhores jornalistas, e pagava bem. Bem pouco, mas o suficiente.
Dava todo o poder e apoio aos editores e, ainda por cima, contratava alguns ícones de fora, como foi o caso de Vinicius Seixas e Cláudio Bueno Rocha, já famosos no Rio de Janeiro.
O que perdia em pontualidade de circulação diária ganhava em ousadia e graça. A edição que deveria circular e ser distribuída de madrugada de vez em quando só comparecia ao meio-dia e foi carinhosamente apelidado de “matuto- vespertino”.
Nem só de ousadia vivia. Colunas sociais com muito humor e informação política e um certo Segundo Caderno cheio de novidades e folclores, a ponto de dar cobertura a um famoso disco voador que teria sido avistado no interior, ao norte do Estado.
Um belo dia, ilustrando a primeira página de uma edição, apareceu o disco voador com a insólita fotografia de um deles. Chamou a devida atenção e graça e tudo explicado como parte da especulação. E pronto.
E Miriam Leitão com isso?
Então.
Fui seu editor desde logo que chegou de Caratinga, Minas, a filha do reverendo. Tive a sorte de compartilhar de sua criatividade e coragem, tanto em O Diário, em A Tribuna e em A Gazeta .
Dividia o que sabia com todos. Acho.
De outra feita, pedi a Mirinha que entrevistasse — então para a Revista Agora, recém-criada — uma cartomante e a reverendíssima fez uma poesia cheia de graça.
Um de seus filhos — Matheus — descreveu em seu livro, “Em nome dos pais”, uma cena na redação do jornal “O Diário” com a participação indesejada dos policiais da ditadura de 64. Um texto com perfeição, detalhes e elegância.
Tenho assistido pela Rede Globo às entrevistas que Mirinha Leitão realiza sempre comprometida com a verdade e as profundidades da notícia.
Quando soube da sua eleição para a Academia Brasileira de Letras, inclui mentalmente O Diário, A Tribuna e A Gazeta na oferenda.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, diz amar seu país.