Amigos mais chegados disseram que as coisas que acontecem comigo são mais engraçadas do que a graça que pretendo ao escrever essas linhas quinzenais. É, pode ser.
Reparando bem tem coisa. Vamos ao amor distante e ao passado, que sempre é muito engraçado. Durante toda a minha vida — até agora, pretendo encumpridá-la mais ainda — vou vivendo sem prestar muita atenção, porque não existe presente. O tempo passa por ele e nem dá confiança.
Portanto vamos ao passado e ao futuro.
Aqui, meus tolerantes leitores, tento fazer uma leitura de mim mesmo, desse tal presente que não existe, mas compõe o futuro e o passado. Falar de mim e do que fiz ou deixei de fazer não pode excluir os outros.
Paulo Eduardo Torre trabalhou em Buenos Aires. Sempre que podia ia lá e nos encontrávamos para matar a nostalgia. Certa vez, conheci, então, uma bela jornalista, correspondente do “Times”, de Londres, e fomos todos para uma festa primorosa no elegante bairro de Olivos.
Disputei palmo a palmo a conquista de Ann contra um irlandês que estava conosco e também havia se encantado com a mesma dama. No meio da festa — sabe como é brasileiro — eu decidi que a melhor estratégia seria ficar a sós com ela e jogar o jogo da sedução. Ela topou e o adversário também.
Fomos a uma boate bacana e logo tirei Ann para dançar à brasileira. Como ela era correspondente, correspondeu. Resumindo, uma noite de amor pintou, com trocadilho e tudo. No dia seguinte ela precisava ir trabalhar e saiu. Eu ainda estava dormindo, a apressadinha me deixou. Quando reencontrei o grupo, veio o porta-voz: “A mentirosa disse que tu és o melhor amante que ela conheceu…”. Mentirosa, entenderam?
Isso já tem tempo. Mas até hoje a lembrança e o título me trazem um breve sorriso de canto de boca.
Outros tempos.
Morei um período na Urca, no Rio. Em um casarão de três andares que só consegui porque um amigo americano ia deixar o imóvel para voltar aos Estados Unidos, e sugeriu que eu — que morava em meio apartamento — fosse para lá de fininho e pagasse o aluguel. Perfeito.
Os meus amigos de Vitória também gostavam de ficar lá. Chico Lessa, por exemplo, chegou a namorar uma amiga, a Márcia, que já havia se hospedado. Aos domingos inventávamos de preparar uma moqueca. A empregada Dulce não sabia fazer nada, literalmente, e era de uma preguiça extraterrena. Tanto é que uma pilha de lanterna enferrujada ficou esquecida bem no meio da sala o tempo todo que vivi ali.
A Urca era plena de “marisqueiros” que se alimentavam afetivamente da minha doce doméstica (Chico Lessa até fez uma música em referência aos encontros da gente: “Uma tarde na Urca”). Muito bonita e muito obrigado.
Outro ponto de encontro entre nós era indecifrável, a Barra do Jucu. Era o tempo de Vitor Santos Neves e sua Branquinha, Vitinho, e Brega, o restaurateur. Além de Atílio Gomes, Elisa Lucinda, Dunga, Rafaela Manoela, Bianca, Ivanzinho, Pedro e Paulo Maia, Lindalva e Amylton de Almeida, e muitos outros mais que a minha memória privilegiada não me deixa acessar.
Lugar de beleza e excitação, a Barra do Jucu, daquele tempo, tinha de tudo, muito, digamos. O bloco pós-carnavalesco “A Porca de Quarta”, por exemplo, comandado por Rubinho Gomes, saía no fim da folia com carro alegórico e um impublicável samba de enredo. Todo mundo ajudava na letra e música. Eu comparecia fantasiado de mim mesmo, como todos lá.
Fase canina.
Cheguei a ter sob minha desobediência seis cães de estimação. Queridos leitores, vocês não sabem o trabalho que dá. Algumas pessoas amigas foram adotando um a um até não haver nenhum.
Prometi a mim mesmo não repetir a dose. Mas que nada. Adotei mais um. Em franca homenagem dei o nome de Rubinho, amigo de primeira hora, ao pastor alemão. De vingança, ele adotou um ao mesmo tempo. Deixei em sigilo a homenagem. Mas que nada. Ele deu o meu nome, Paulo Jorge, ao cão, e não me disse.
Quando Rubinho foi vaciná-lo e deu o nome do animal ao veterinário, ele fez a ligação óbvia: “O senhor deve ser o Rubinho Gomes, né?”.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, avisa que tem direitos civis e tem INSS.