Um certo dia de verão, passeando pelos terrenos do hospital que dirigia, o Adauto Botelho, encontrei com dois dedicados funcionários, casados entre si: José e Maria.
Pois bem.
Longe daqui, exatamente na Itália, em Gorizia e Trieste, um casal revolucionava e humanizava os cuidados em saúde mental: Franco e Franca Basaglia.
Pensando neles, arrisquei desafiar José e Maria, sem esperança nenhuma de conseguir criar um serviço ali em Cariacica nos moldes ideológicos italianos: reverter a tendência hospitalocêntrica. Trocando em miúdos, movimentar os recursos públicos, ou não, a favor da saúde mental e contra o confinamento, a maioria dos quais, como até hoje, pela própria família.
Estava nascendo o Centro de Psiquiatria Comunitária (CPC) que viria ser a experiência única no Estado do tratamento com a participação do paciente e suas famílias. Por razões de limite, só pudemos atender pacientes do sexo masculino, aliás, exatamente na enfermaria que durante muitos anos internava crianças.
"Vamos começar aqui no terreno atrás do hospital uma unidade experimental de Saúde Comunitária, sem internações, com os pacientes voltando para casa após o jantar?", perguntei ao casal.
Maria logo se animou.
A etapa seguinte dependia de César Mendonça, poderoso presidente da Sociedade Médico Psiquiátrica do Espírito Santo (Sompes).
Falei com ele. Para minha grata surpresa adorou a ideia. Ele sempre amou o hospital e tinha punhos de ferro para dirigir (estudou Psiquiatria Clínica nos Estados Unidos, o Doutor Mendonça, como era conhecido lá).
O que mais me influenciou foi o fato de Liberato Schwartz - polivalente de caráter e formação em Psicoterapia, especialmente rogeriana, de Carl Rogers.
Eu fui oficializado como diretor do CPC. No início, sem ter certeza de como operar o hospitalzinho atrás do Adauto.
No país quase todo pairava a ideia de reverter a tendência hospitalocêntrica. Foi chegando gente boa. Na formação técnica inicial da “comunitária” éramos eu na direção, Liberato, coordenação técnica, Ítalo Campos e Pedro Brandão (que importei de Belo Horizonte), Eliana Vicentini, Rachel Pessoa, Terezinha Mansur, Vanessa Torres, Graça Ruy, Vera Lúcia Simon, Rosângela Araújo, Denise Amorelli, Fausto Amarante e os acadêmicos Marcelo Kill, Paulo Aragão e alguns poucos.
Então:
De repente, não mais que de repente, o serviço experimental ganhou volume e nome. No mundo inteiro a Psiquiatria Comunitária ganhava espaço que deu origem ao mínimo de humanização a essas pessoas consideradas diferentes.
Os próprios pacientes, algumas vezes, coordenavam a reunião geral de todas as manhãs, as assembleias com poder real de decisão. Isto é, liberdade para ser, que é a primeira coisa arrancada de quem tem qualquer rótulo patológico relativo à mente.
Busnello e Maria Luiza Ocampo.
No auge do movimento, Liberato e eu fomos a Porto Alegre, onde há alguns anos, em convênio com a Universidade do Rio Grande do Sul, operava uma escola de primeira linha em medicina comunitária, exatamente no Morro da Cruz. Fomos captar o segredo deles. Ellis D’Árrigo Busnello era o criador do serviço. Uma pessoa especial. Veio aqui em Vitória a nosso convite.
A psicanalista argentina Maria Luiza de Siquier Ocampo também veio aqui com suas visitas. Morava no Rio, era uma especialista de grande prestígio em seu país.
A comunitária passou a exercer a supervisão e formação de recém diplomados e profissionais interessados em uma nova maneira de pensar o Outro.
Liberato nos ensinava no Centro de Saúde de Vitória, bem no Parque Moscoso, ao lado de Antonio Batalha, a diferença ideológica entre medicar simplesmente ou dar atenção integral.
Justiça seja feita, com a sustentação de Mendonça creio que fincamos um marco na humanização do paciente psiquiátrico.
Muita gente saiu de lá são e salvo.
Passaram-se os anos dourados, um dia acabou.
Visto assim de longe, não há sinal de progresso nos movimentos públicos de saúde de um modo geral.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, crê que essa turma está se reunindo até hoje, mesmo na ausência física.