Sempre quis ser oficial da Marinha. Na adolescência, eu e meu amigo Amylton Mourão Neto, ao invés de farrear, entrávamos madrugada adentro estudando para ingressar na fortaleza de ciência e arte, o Colégio Naval.
Amanhecíamos assobiando o "Cisne Branco". Delirávamos passar em primeiro lugar, empatados, para usar o incomparável uniforme branco brilhante daquela noiva das Forças Armadas. Sequer passava na nossa cabeça apaixonada pela defesa do Brasil, questões políticas que envolvessem aquela perfeição de organização naval. De vez em quando, aportava uma unidade da esquadra e íamos visitar o navio com a fantasia de ficar lá e ser incorporado de que maneira fosse.
O niquelado das embarcações era uma verdadeira sedução. Mesmo assim adverti Amylton:
- Você está sabendo quem é que passa horas lustrando e produzindo essas preciosidades, não está? Nós mesmos.
Mas que nada. Cara no estudo até de manhã. Dá-lhe madrugadas que aqui não tem outro caminho que não o saber. Quem passava no concurso para o Colégio tirava de letra qualquer outro exame seletivo.
- Se o Brasil entrar em guerra você se alistaria? – perguntei ao Amylton.
- Só se fosse na Marinha.
Meu primo Afrânio, que havia recebido a espada ao final da Escola Naval, iria dar uma festa e mostrar-se à família já uniformizado.
Claro que fomos. Quando ele apareceu descendo as escadas da casa na Rua Isabel ficamos paralisados de encantamento.
Certo dia, meu pai avisou que estava uma confusão danada no país. “Vocês têm que deixar o exame da Marinha pra depois." A gente tinha ouvido no rádio alguma coisa da tal confusão danada e cheios de perplexidade demos um tempo. Qualquer dia a gente chega lá.
Eu acabei fazendo Medicina e ele Engenharia.
Na verdade, o uniforme de médico, obrigatório nos hospitais e ambulatórios, tem tudo a ver com o sonho naval. Mas não era a apaixonante Marinha do Brasil.
Certa vez, atendendo no consultório um oficial marinheiro uniformizado, estava eu lá fazendo minhas intervenções psicanalíticas, quando o cliente me despertou:
- Doutor, o senhor está bem?
Claro que estava bem. Com os olhos literalmente vidrados nos detalhes do uniforme. Em duas medalhas douradas. E a única coisa que o delírio da paixão ouvia era o “Cisne Branco”.
Ainda bem que me recuperei a tempo para inventar qualquer coisa e justificar a perplexidade da admiração, ainda que fosse uma fantasia do dia seguinte.
O desejo verdadeiro não acaba. Faz algumas deambulações pelas diferentes funções da memória, mas acabar, jamais.
Confesso que aparentemente “do nada” havia crescido em mim um imenso prazer ligado à navegação. Mesmo que não fosse eu o timoneiro nas viagens a bordo dos transatlânticos da Linea “C” , da Manaus Harbour, ou das canoas e catraias com dois remos, que iam do Porto de Vitória a Paul, em Vila Velha.
Uma vez, em plena ditadura, um colega jornalista recebeu uma medalha de “Amigo da Marinha”. O título da comenda nomeava no outro meu desejo de criança, que nunca acaba.
Quanto à inveja que senti do então amigo da Marinha, racionalizei para não ferir meu coração:
- Nestes tempos, ser amigo da Marinha é fácil. Quero ver se tem coragem para ser inimigo.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, levantou âncoras e foi passear.