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Mariana Reis é administradora de empresas e educadora física. É pós-graduada em Gestão Estratégica com Pessoas e em Prescrição do Exercício Físico para Saúde. Atua como consultora em acessibilidade e gestora na construção e efetivação das políticas públicas para a pessoa com deficiência em Vitória

Um café, um brinde e uma roda de amigos

Em uma cafeteria, todos os sentidos se ampliam, temos o som das pessoas conversando, o barulho da máquina, os aromas, as luzes, as texturas dos móveis. É uma festa para os sentidos. Agora imagina ser barrada nessa festa por causa de alguns degraus

Publicado em 27/04/2021 às 02h00
Tomando café
Tenho uma relação forte com o café e com todos os seus significados. Crédito: Freepik

Vamos marcar um encontro? Quando a conversa chega nesse ponto é a hora em que a empolgação percorre meu corpo. Pode ser para reunião de trabalho, aula, para colocar o papo em dia. O motivo importa, mas importa ainda mais que esse encontro aconteça em um café. E, cá para nós, nossa cidade tem locais deliciosos, se você for também fã de um café charmoso e bem feito. Entretanto, para mim, um item é fundamental: a acessibilidade.

Hoje muito se fala da experiência – conceito que vai além do produto ou serviço ofertado por uma empresa. Pois ser acessível e permitir que todas, TODAS, as pessoas se sintam bem-vindas em um espaço, sem constrangimento, sem dificuldades impostas pelo ambiente, é muito mais forte do que palavras bonitas ou fotos reluzentes em alguma rede social. Tenho uma relação forte com o café e com todos os seus significados. É um ritual diário, que inaugura o dia e traz sensações de abraço e presença. Mesmo que eu esteja sozinha com minha xícara. Em uma cafeteria, todos os sentidos se ampliam, temos o som das pessoas conversando, o barulho da máquina, os aromas, as luzes, as texturas dos móveis. É uma festa para os sentidos. Agora imagina ser barrada nessa festa por causa de alguns degraus.

Quando viajo, a primeira coisa que faço é conhecer os cafés locais e observar o vai e vem das pessoas. Começo a entender a cidade e os costumes observando o movimento por ali. E foi numa dessas viagens que aprendi que alguns escritores famosos na França, como Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, usavam a cafeteria como se fosse um cômodo de suas casas. Passavam horas lendo e escrevendo com o típico barulhinho dos pratos, talheres, xícaras e aromas de cafés.

Eu estava na cafeteria preferida deles quando soube disso, e enquanto tomava o meu café, fiquei imaginando os dois, no prazer sem censura, apreciando a beleza naquele lugar e escrevendo obras que temos o privilégio de ler nos dias de hoje. Comecei a criar imagens deles degustando cada xícara, aquecendo o frio com a energia da caneta na mão e de cada página virada. Cappuccino, chocolate quente, inspiração fervendo, meus pensamentos eram calorosos em pensar que eu estava sentada num lugar recheado de histórias.

Diferente de Sartre e Beauvoir, eu curto mesmo é a ternura em excesso dos aromas e sabores que fazem vibrar meus sentidos. Interessam-me os métodos de extrair os cafés e dos muitos grãos especiais que produzimos no Espírito Santo e no Brasil. Tenho os meus preferidos e passo longas horas saboreando cada um deles. Embriagando-me de amor e pensamentos bons. Se tem bolo de laranja, e às vezes um chazinho, me entrego sem medidas para as amizades, surpresas e encontros.

Era uma tarde fresca de final de primavera, antes da pandemia, saí do trabalho e fui mergulhar de coração num dos meus cafés preferidos. A tranquilidade desse ambiente traz serenidade para os desafios que a vida muitas vezes nos apresenta.

Enquanto fazia meu pedido, vi que três rapazes chegam alegres, falantes, e com gestos de conquista que eram fáceis de perceber. Foram brindar com café e em alto e bom tom, disseram para a atendente: vamos nos embebedar de café e pode incluir aquela moça também. Estamos comemorando! Aquela moça era eu. Nunca me viram e nem eu sabia o motivo da vitória.

Ao ouvir que estava incluída naquela roda em torno da mesa, tratei de deixar abertos todos os canais que me levariam ao universo do outro. Universo esse, que era de felicidade, de vibrar algo que nem sabia, e que nem deu tempo de saber, mas que ali estava um dos maiores diamantes a ser lapidado entre as amizades: o compartilhar. Deixei de lado as proteções que nos cercam para ver os que estão ao nosso lado e com os quais, com a correria, preconceitos não são possíveis trocas verdadeiras. Então, se é para comemorar, mais um café, por favor.

Esses encontros que acontecem comigo no café ou em outros tantos lugares, servem para que eu tenha uma noção do quanto se perde sobre o que acontece ao nosso redor quando ficamos presos a conceitos ou discursos politicamente corretos. E no quanto a amizade é capaz de construir pontes e derrubar os muros que separam e dividem. E o quanto o café pode misturar isso tudo e nos oferecer felicidade.

Números, metas, o corre-corre, o trabalho são importantíssimos em nossas vidas, mas estamos esquecendo do que realmente é primordial: a relação que criamos com o mundo (homem e natureza) ao nosso redor. Nossas conquistas e aprendizados estão na forma como lidamos com as pessoas, dando a cada uma delas, companheirismo, o respeito, amizade, risos, atenção e, neste caso, café. Quando deixamos canais de recepção abertos para o que acontece a nossa volta, pessoas improváveis podem aparecer. E quando quebramos as barreiras dos preconceitos, permitimos a entrada desses outros seres que podem ampliar a nossa visão para mundos diferentes. Viva os esbarrões e os encontros, que apesar de loucos, valem a pena dizer um brinde!

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta

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