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Mariana Reis é administradora de empresas e educadora física. É pós-graduada em Gestão Estratégica com Pessoas e em Prescrição do Exercício Físico para Saúde. Atua como consultora em acessibilidade e gestora na construção e efetivação das políticas públicas para a pessoa com deficiência em Vitória

Como um decreto aniquila de uma só vez com a inclusão

O decreto que institui a Política Nacional de Educação é um “soco no estômago” de quem, há décadas, luta por uma educação igualitária respeitando as singularidades de seus alunos

Publicado em 06/10/2020 às 12h48
Atualizado em 06/10/2020 às 12h48
Inclusão
Bem mais que desmerecer a diversidade e características humanas, o artigo aponta para nós, dizendo que a escola comum não é lugar para quem tem deficiência. Crédito: Shutterstock

Querer se valer do discurso da inclusão para destilar a discriminação, a segregação e negar a existência de lutas sociais e históricas é, no mínimo, corroborar com a cultura do preconceito. Até diria para quem tem esse discurso que o ideal é estudar bem mais.

No último 30 de setembro, quase inaugurando o mês onde se comemora o Dia dos Professores, eis que o governo nos presenteia com o decreto que institui a Política Nacional de Educação. Um verdadeiro “soco no estômago” de quem, há décadas, luta por uma educação igualitária respeitando as singularidades de seus alunos.

A segregação nas entrelinhas

Assusta-me tamanha fragilidade e crueldade disfarçadas por detrás das  palavras doces de todo o decreto. Costumo chamar de inclusão feita às avessas da exclusão. O artigo sétimo fere tão gravemente documentos internacionais e constitucionais sobre a Política da Pessoa com Deficiência que chega a ser o cúmulo da falta de respeito e também de civilidade. Na verdade, todo o texto é uma afronta aos direitos adquiridos pelo movimento.

O artigo sétimo nos empurra para o paredão da segregação sem dó nem piedade. Ele “propõe a criação de centros bem específicos, como deficiência visual, deficiência intelectual, transtorno global de desenvolvimento, deficiência físico-motora, superdotação, surdez". Bem mais que desmerecer a diversidade e características humanas, o artigo aponta para nós, dizendo que a escola comum não é lugar para quem tem deficiência. Socorro!

A Educação prepara para o mundo e o mundo é um só

Como professora e gestora pública sempre entendi que conviver com a diversidade exige de nós novos posicionamentos, não só metodológico ou instrumental, mas também ético. Aí está o grande desafio para que um projeto de inclusão aconteça com sucesso. A realidade das nossas escolas é cercada por enormes desafios e de muitas tarefas a cumprir para atender a missão de ensinar a todos.

Não vamos nos calar diante de tamanho retrocesso e nem tampouco vamos permitir ofuscar os mais de um milhão de alunos matriculados na Educação Especial das escolas comuns nos últimos doze anos. Isso representa 87% de taxa de inclusão, segundo o Conselho Científico do II Congresso Nacional de Práticas Inclusivas e o Laboratório de Estudos em Ensino e Diferença da Universidade Estadual de Campinas (Leped/FE/Unicamp).

Pessoas com deficiência são reconhecidas por sua luta incessante pela igualdade e por reivindicar respeito aos direitos conquistados. Manter o foco sobre temas relacionados a essas conquistas é romper com a forma nefasta com que nos agridem documentos como esse.

Viva a igualdade e o respeito às diferenças

Mariana Reis

colunista

"Termino com uma reflexão do professor Boaventura de Souza Santos: temos o direito de ser iguais quando a nossa diferença nos inferioriza; e temos o direito de ser diferentes quando a nossa igualdade nos descaracteriza. Daí a necessidade de uma igualdade que reconheça as diferenças e de uma diferença que não produza, alimente ou reproduza as desigualdades"

Não se iluda. Trazer as pessoas com deficiência para todos os espaços comuns da sociedade e avançar no conhecimento pode ser ameaçador para aqueles que permanecem na barreira do desrespeito, da desigualdade e da discriminação.

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