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É economista e cronista. Neste espaço, aos sábados, dedica-se a crônicas que dialogam com a memória recente do Espírito Santo, da cultura à política, sem deixar de alfinetar os acontecimentos da atualidade locais e nacionais

O som orgânico que vem das feiras da Grande Vitória

A verdade é que, embalado por uma boa música, o consumidor ganha um bom tempero no seu humor e fica mais sensível ao consumo

Publicado em 29/08/2020 às 11h00
Atualizado em 29/08/2020 às 11h00
Música ao vivo nas feiras da Grande Vitória
Música ao vivo nas feiras da Grande Vitória. Crédito: Amarildo

Antes que algum leitor esprema um limão nos meus olhos, reconheço que abusei da liberdade poética ao dar o título acima pra falar do som que rola nas feiras livres. A verdade é que não resisti à tentação de qualificar aquele fundo musical, digamos assim, das compras ao ar livre como se fora mais uma cesta de verduras, um punhado de legumes, um maço de temperos verdes. Verdade se diga que, quando se juntam os produtos da terra e a boa música, esta quitanda matinal se transforma num saboroso alimento para o corpo e para a alma.

Aqui na Capital, a música chegou às feiras quase ao mesmo tempo em que a pimenta dedo-de-moça começou a tomar o lugar da malagueta na preferência do consumidor. Culpa dos sofisticados chefes de cozinha que só a usam em seus programas de TV. A velha e saborosa pimenta nascida na África, a malagueta, vem perdendo terreno a cada dia pra bonita e gostosa pimenta peruana.

Mas enquanto as pimentas disputam o seu lugar em nossas mesas, tem músico que faz o som nas feiras sem dar a mínima bola para a concorrência. Na feira de Jardim da Penha, dois violinistas – distantes uma dúzia de passos um do outro – gastam as manhãs de sábado enchendo o ar de boleros, um ou outro tema clássico e... tangos. Verdade verdadeira. Tocam por um punhado de moedas depositadas em um chapéu a seus pés. E merecem. Comprar um litro de mel, da flor do Assa-peixe, ao som de “Quizás, quizás, quizás”, é experiência única.

Já na feira da Praia do Canto, vez por outra, um trio ataca de forró. A música é gostosa de se ouvir, mas o alvo, os consumidores praianos, a mim me parece ter outras preferências musicais. Não mexem os ombros, nem marcam o compasso com os pés. Mas são gentis e pingam algumas moedas no chapéu nordestino.

Em Gurigica, na feira de domingo, muito raramente músicos se apresentam. Fazem o tipo bate e não volta. Acho que a turma de lá não abre a mão assim tão facilmente.

A verdade é que, embalado por uma boa música, o consumidor ganha um bom tempero no seu humor e fica mais sensível ao consumo. Falo por mim. Na feira livre da Rua Agromonte, no centro de Havana, perto da Praça Central, o sonzão rola solto. E é só reggaeton, a coqueluche contemporânea do Caribe. Eu que pensei em só dar uma passadinha por lá num domingo de verão, fiquei um bom tempo pra lá e pra cá. Olhando tudo e marcando o compasso com a cabeça.

E a minha animação acabou por me levar a comprar, acredite, um singelo maço de coentros. Levei para o hotel e botei num copo com água, feliz por também ter feito feira longe de onde moro. Ah, sim, no dia seguinte dei para a camareira que me disse que estava chegando em boa hora. À noite, ela ia temperar o feijão. Do mesmo jeito com que nossos vizinhos baianos temperam o par constante do arroz.

Mas um som bem diferente rola na feira da rua Tristan Narvaja no centro de Montevidéu, no Uruguai. Fica numa esquina da avenida 18 de julho e ocupa uns bons dois quarteirões.

Tem de tudo. Tudo mesmo, mas a música só acaricia os ouvidos de quem experimenta o bolo de marijuana, vendido numa banca indiscutivelmente orgânica.

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