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Crônica

Você aí beijou muito? Saiba que o beijo merece respeito

Todo mundo hoje em dia manda beijos até pra quem nunca viu. O beijo anda mais barato do que um chiclete. Virou uma merreca

Públicado em 

15 ago 2020 às 10:00
Marcos Alencar

Colunista

Marcos Alencar

Beijos de cinema: A dama e o vagabundo
Beijos de cinema: A dama e o vagabundo Crédito: Divulgação
Sem que se dessem conta do pecado que cometiam, nossos contemporâneos apagaram os refletores, baixaram as cortinas e encerraram o secular estrelato do beijo. Não no teatro, não no cinema, mas na vida real.
Do traiçoeiro beijo de Judas em Jesus, passando pelo inesperado beijo entre a enfermeira e o marinheiro americano na Times Square e pelo sensualíssimo beijo de Humphrey Bogart em Ingrid Bergman, no filme “Casablanca”. E até mesmo o beijo mágico da princesa que fez de um sapo um formoso príncipe,o beijo sempre foi a estrela maior da celebração de fortes sentimentos.
Todos os beijos. O beija-mão, respeitoso, o beijo carinhoso reciprocamente dado nas bochechas de pessoas queridas, a bitoca. O beijo simulado, aquele arremedo do futuro email: beija-se a mão aberta e dá um send na direção da pessoa amada. Estes são beijos dados de olhos abertos. Beijos festivos.
Já os beijos apaixonados são diferentes. Beijos apaixonados trazem consigo a escuridão.Mas não aquela de um quarto com a luzes apagadas ou de uma praia sob a lua nova. Aquela que provoca um blecaute total no universo e transforma dois amantes em uma só pessoa.
Beijos que não pedem fotos, aplausos, agradecimentos. Beijos que dão de ombros para o mundo inteiro. Tanto faz Colonia Del Sacramento, Pedra do Siribeira,o banco de um Gordine, a proteção dos canhões do antiga Fortaleza de São João. Nenhum lugar do mundo importa quando o beijo é de amor verdadeiro.
No calendário mundial, o dia 6 de agosto é reservado para se comemorar o Dia do Beijo. Você aí beijou muito? Nem você e nem ninguém. Talvez uns gatos pingados ouviram falar, mas não deram a menor bola. Sabe por quê? Porque o beijo anda tão desvalorizado que até dá pena. Promoveram ele a bye,bye. Virou sucessor do “tchau” ao final de cada telefonema. E fez carreira no varejo.
Todo mundo hoje em dia manda beijos até pra quem nunca viu. O beijo anda mais barato do que um chiclete. Virou uma merreca. Experimente contar quantos beijos, desses baratíssimos, você gasta por dia. Vinte, trinta... se beijo fosse cotado na bolsa de valores, todos nós estaríamos falidos. Não se espante quando souber que o assaltante tomou o celular e a carteira do cidadão e partiu dizendo “beijos” para o infeliz.
Acho que nunca mais o beijo voltará ao altar dos nossos sentimentos. Resta-nos apenas o consolo de que o beijo dos poetas continuará impresso para sempre. Pra gente se lembrar que o beijo que hoje anda de bermudas um dia já se vestiu a rigor.
Casimiro de Abreu não desperdiçava seus beijos com a galera. Seus beijos tinham endereço certo:
“Pelo sol que brilha agora/Eu juro dar-te, Maria,/Quarenta beijos por dia/E dez abraços por hora.”

Marcos Alencar

Marcos Alencar é colunista de A Gazeta

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