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Crônica

Galinhas e urubus sabem como ninguém se vem chuva por aí

Nada de umidade relativa do ar nem mesmo temperatura ambiente e sua projeção para o dia seguinte. Informavam apenas a chegada da chuva e a do sol. Simples assim, como é do feitio das aves

Públicado em 

04 jun 2023 às 00:35
Marcos Alencar

Colunista

Marcos Alencar

Urubu e galinha
Crédito: Amarildo
Muito antes da Climatempo, nossos atuais guias das intenções meteorológicas, duas aves já atuavam na área, em dois observatórios distintos: um em terra firme e outro sobre os telhados. No chão, mais precisamente no espaço aberto do galinheiro, as aves ao pressentirem a chegada da chuva cuidavam de não ficar encharcadas.
Já no observatório "uphouse", competentes urubus davam sinais anunciando que chegava ao fim a chuvarada. Quem anunciava que a chuva estava pra chegar eram elas. Mas só eles sabiam quando o sol estaria de volta.
Eram informações de caráter muito restrito. Nada de umidade relativa do ar nem mesmo temperatura ambiente e sua projeção para o dia seguinte. Informavam apenas a chegada da chuva e a do sol. Simples assim, como é do feitio das aves.
Vejamos como esse observatório funcionava no galinheiro. Para quem não sabe, a protuberância que as galinhas têm acima da cloaca, conhecida como “sôbre” ou sambiquira, é um reservatório de óleo da ave. Nas cidades maiores é apenas um delicioso tira-gosto de botequim. Nas cidades do interior a sambiquira tem fundamental serventia no anuncio de “vem água aí”.
Não me pergunte como elas sentem que vai cair chuva. Isso não sei. Mas quando elas começam a usar o bico para retirar gotas do óleo da sambiquira e espalhar por sobre suas penas é sinal que a chuva está chegando. O óleo vira um protetor tão eficaz que faz água escorrer sem encharcar as penas. Galinhas espalhando o óleo, sinal que vai chover. Sem essa de balão atmosférico, de computadores, de cientistas de plantão. E o melhor: as galinhas, nessa especialidade delas, são mesmo as maiorais. Não falham nunca. Porém não sabem quando o sol voltará a brilhar.
Quem conhece esse segredo são os urubus. Apesar de estarem sempre vestindo luto, sua atuação nessa área traz sempre muita alegria para os moradores da cidade. O urubu é quem anuncia com precisão o fim do aguaceiro e a volta do sol. E o sinal da estiagem ele exibe para quem quiser ver. Em cima dos telhados das casas ele pousa e permanece imóvel mantendo as asas bem abertas. E “let de sunshine in”! Uma silenciosa, auspiciosa e precisa informação.
Um terceiro bambambam na previsão do tempo era meu pai. Ele não sabia quando era hora do sol voltar a nos aquecer. Mas me ensinou a prever a chegada emergente de uma tempestade, bem antes dos relâmpagos e das trovoadas. Bastava chegar até a janela e respirar fundo. Você, aos poucos, vai aprender a sentir o cheiro do aguaceiro que está a caminho. Não tem erro. É tiro e queda. E o melhor a fazer é ir logo fechando as janelas.
Mas se você não tem na vizinhança nem galinhas nem urubus, mas tem uma fé inabalável na providência divina, siga os ensinamentos de sua avó. Para chamar chuva, reze para São Pedro, o venerado Santo da Chuva. E para pôr um ponto final na mais violenta das tempestades, queime palha benta. Aquela que você trouxe do último Domingo de Ramos.
Para quem não assiste e não ouve os noticiários, não acredita em galinhas e urubus, não tenta aprender a sentir o cheiro da chuva  nem leva fé na religião, existem os guardas-chuvas e as marquises nas calçadas. Mas aí a vida fica meio sem graça.

Marcos Alencar

Marcos Alencar é colunista de A Gazeta

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