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Crônica

A grande falha na mais primorosa criação do universo

Lembre-se sempre de que todas elas, infelizmente, têm uma data de validade. Mas, felizmente, nenhuma contraindicação

Públicado em 

14 mai 2023 às 00:10
Marcos Alencar

Colunista

Marcos Alencar

Amarildo
Crédito: Amarildo
Agnósticos têm na ponta da língua a lista das maiores invenções do ser humano. O fogo, a pólvora, a bússola, o telefone, o computador, as naves espaciais... há uma prateleira cheia de notáveis inventos a serem lembrados sem muito pensar.
Muito embora eu não tenha sido muito claro no título acima, na verdade eu queria mesmo é me referir a esta inigualável invenção divina chamada mãe. Sim, o nosso primeiro amor nestas paragens terrenas. Ela que nos deu o primeiro abraço, que — exagerada que só — nos cobriu de beijos e carinhos sem ter fim e nunca mais largou do nosso pé.
E foi assim que viemos ao mundo, presenteados com essa figura multiúso que nos deu de mamar, trocou sem cansar nossas centenas de fraldas, sorrindo sempre ao nos banhar e tentando fazer nos nossos ainda ralos cabelos a linda chuquinha com a qual ela sempre havia sonhado.
Mãe, sem microfone e sem palco, nos encantava, nos fazia sorrir, nos fazia adormecer felizes. Foi ela a nossa primeira e inigualável cantora. Desafinadas, muitas delas, mas mesmo assim traziam até ao colo o sono manso de que precisávamos.
Fomos crescendo, aprendendo com elas a assoar o nariz, a dar descarga no vaso, a comer de tudo, a raspar o prato, a rezar antes de dormir. E então, maiores um pouco, era chegada a hora das primeiras aulas de comportamento. Do certo e do errado. Aprendemos com ela a respeitar os mais velhos, a não bater no irmãozinho, a não dizer nome feio, a andar de bicicleta... você se lembra quem era a única pessoa do seu mundinho que se abaixava para soprar o arranhão em seu joelho, quando o Mertiolate da época ardia mais do que merecíamos? Só ela. Ninguém mais.
Mas eis que chega a hora dos pequenos castigos. Era preciso preparar a gente para o mundo. E então nos obrigava a sentar no assoalho, olhando para a parede, para aprender que não devíamos fazer coisas erradas. E quando choramingávamos um “pode sair?”,  ela fazia das tripas coração para ser firme na resposta: “Enquanto ficar perguntando vai continuar aí”.
E a recíproca? O que você me diz? Acha que um beijinho ao chegar da rua, um buquê de flores nos aniversários, no dia das mães e mais uma lembrancinha no Natal está de bom tamanho? É, acho que todos os filhos pensam assim mesmo. E não os culpo por isso. A culpa é única e exclusivamente da forma incompleta com que as mães nos foram entregues. Todas elas vieram sem bula! Uma falha imperdoável! Vejam que absurdo! Nem uma linha sequer pra dizer o que é uma mãe e informar os cuidados necessário para dar a ela uma vida mais feliz e duradoura.
Coisas como “não deixe sua mãe preocupada à toa, carregue ela pra dar umas voltas no shopping. Filho crescido não pode deixar a mãe de castigo na frente da televisão. Mãe gosta também de jogar baralho, de ouvir uma boa piada, de tomar um aperitivo antes do almoço de domingo. Mãe gosta de saber de umas fofoquinhas, de ganhar, pelo menos, uma assinatura de sua revista preferida, de um filho que lhe acarinhe os cabelos depois de um dia mais tenso". Olhe, toda mãe merece muito mais atenção do que habitualmente lhe é dada. Lembre-se sempre de que todas elas, infelizmente, têm uma data de validade. Mas, felizmente, nenhuma contraindicação.

Marcos Alencar

Marcos Alencar é colunista de A Gazeta

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