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Marcelo Pacheco Machado

A favor das cotas nas universidades

Mais importante do que insistir em classificações humanas instáveis é perguntar qual tipo de diversidade contribui diretamente para a função própria da universidade

Publicado em 02 de Julho de 2026 às 04:00

Públicado em 

02 jul 2026 às 04:00
Marcelo Pacheco Machado

Colunista

Marcelo Pacheco Machado

Se você abriu este texto esperando que eu defendesse classificar pessoas pela cor da pele, pode parar por aqui. Não é dessa cota que falo, nem dessa diversidade. A cota que defendo serve a uma diversidade específica: a diversidade de ideias. Ela é decisiva para a vida universitária, porque diz respeito à capacidade de uma instituição expor seus alunos e pesquisadores a modos distintos de compreender o mundo.


Ao pensar na diversidade, a universidade precisa tomar cuidado para não transformar diferenças humanas complexas em categorias rígidas. Políticas baseadas em critérios raciais podem ter objetivos legítimos de inclusão, mas também carregam dificuldades práticas e conceituais relevantes, especialmente quando dependem da avaliação da aparência física de uma pessoa. 


As bancas de heteroidentificação, ao submeterem candidatos ao julgamento oficial de seu fenótipo, revelam a fragilidade de qualquer sistema que pretenda definir pertencimento racial a partir de sinais corporais.

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O Brasil concentrou seus esforços na diversidade demográfica e construiu um aparato complexo para enquadrar racialmente uma população majoritariamente mestiça. Ao julgar a constitucionalidade das cotas raciais na ADC 41, em 2017, o Supremo Tribunal Federal admitiu a existência das chamadas zonas cinzentas, isto é, situações em que o fenótipo não permite uma classificação segura. 


Em 2025, no julgamento do ARE 1.553.243, com repercussão geral reconhecida pelo Tema 1.420, a Corte também afirmou que o Judiciário pode controlar os atos das bancas de heteroidentificação, justamente porque o critério fenotípico abre margem a subjetivismo. A própria necessidade de controle judicial mostra que se trata de uma política sensível, que exige prudência institucional.


Mais importante do que insistir em classificações humanas instáveis é perguntar qual tipo de diversidade contribui diretamente para a função própria da universidade. Estudos sobre criatividade e inovação mostram que a diversidade cognitiva, entendida como a diferença nos modos de pensar, nos repertórios intelectuais e nas visões de mundo, associa-se a resultados criativos de maneira mais consistente do que a diversidade meramente física.


A exposição a perspectivas divergentes leva cada integrante de uma comunidade acadêmica a revisar pressupostos, testar argumentos e lidar com objeções reais. Desse processo nascem soluções novas, avanços intelectuais e produções capazes de romper o já sabido. 


A diversidade que mais interessa ao conhecimento, portanto, é a diversidade do pensamento. Ela não substitui outras preocupações institucionais, mas deveria ocupar lugar central em qualquer projeto sério de universidade.


Nos Estados Unidos, esse tema já entrou na agenda institucional de algumas universidades. As pesquisas anuais conduzidas pelo Harvard Crimson junto ao corpo docente de Artes e Ciências revelam uma assimetria relevante na autodeclaração política dos professores. 

A Universidade Harvard fica em Massachusetts, nos Estados Unidos, e é uma das instituições de maior prestígio do mundo Divulgação

Segundo esses levantamentos, a proporção de docentes identificados com posições de esquerda permaneceu majoritária ao longo dos últimos anos, embora tenha oscilado de mais de 80% em 2022 para cerca de 63% em 2025. No mesmo período, a parcela de professores conservadores permaneceu bastante reduzida, partindo de aproximadamente 1% e continuando em patamar minoritário.


No Brasil, o levantamento sistemático sobre esse tipo de diversidade ainda é escasso. Essa ausência de dados dificulta uma discussão mais precisa sobre a composição intelectual das universidades brasileiras. 


Um estudo de Caroline Pacievitch e Luis Fernando Cerri, publicado na revista Antíteses, com professores de História de países do Mercosul, encontrou que 84,5% dos brasileiros pesquisados preferiam siglas partidárias de esquerda. Embora se trate de uma amostra limitada, o resultado sugere que a questão merece investigação mais ampla.


O ponto desses números não é julgar a opinião individual de cada professor. Professores, como quaisquer cidadãos, têm plena liberdade para formar suas convicções políticas, morais e intelectuais. 


O problema surge quando o conjunto institucional se torna excessivamente homogêneo, porque a homogeneidade tende a reduzir o contraste de perspectivas, empobrecer o debate e limitar o alcance das perguntas formuladas em sala de aula e na pesquisa.


Estudos sobre diversidade intelectual e produção acadêmica sustentam que a baixa diversidade de pensamento pode comprometer a qualidade das ciências sociais, porque valores compartilhados por um grupo intelectualmente homogêneo influenciam perguntas de pesquisa, hipóteses, critérios de avaliação e conclusões. 


A crítica não pressupõe má-fé dos pesquisadores. O ponto é mais simples: comunidades intelectuais funcionam melhor quando suas premissas podem ser examinadas por pessoas que não partem necessariamente dos mesmos pressupostos.


Essa preocupação é especialmente relevante nas humanidades, em que a avaliação do trabalho acadêmico depende com frequência de juízos interpretativos. Diferentemente das áreas em que o erro pode aparecer com maior objetividade por meio de cálculo, experimento ou replicação técnica, muitas discussões humanísticas dependem de critérios argumentativos, repertório teórico e julgamento avaliativo. 


Quando os avaliadores compartilham premissas muito semelhantes, aumenta o risco de que a qualidade seja confundida com conformidade intelectual. O dissenso, nesse ambiente, pode ser lido menos como contribuição e mais como desvio.

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É nesse contexto que Harvard passou a tratar a diversidade de pensamento como uma preocupação institucional. Diante de um corpo docente no qual a presença de professores conservadores era muito pequena, a universidade começou a discutir formas de ampliar a pluralidade de perspectivas em seu ambiente acadêmico. 


Entre as medidas relatadas estão a vedação de avaliações de alunos baseadas nas crenças que professam, a adoção de regras destinadas a proteger a liberdade de manifestação em sala de aula e a busca de recursos para financiar cátedras voltadas à diversidade de pensamento.


Essas iniciativas não significam substituir o mérito acadêmico por um critério ideológico inverso. O desafio é mais delicado. Harvard parece reconhecer que uma universidade pode preservar a autonomia de seus departamentos e, ao mesmo tempo, criar condições para que diferentes tradições intelectuais tenham espaço real no ensino e na pesquisa. 


A diversidade de pensamento, nesse sentido, não deve ser vista como concessão política, mas como requisito de qualidade acadêmica.


Há aqui uma oportunidade. Não a de repartir vagas conforme a cor da pele, mas a de reabrir a universidade ao dissenso, permitindo que o aluno forme seu próprio juízo diante de visões que efetivamente divergem entre si. 


Harvard vem sinalizando que a diversidade do corpo docente não deve ser pensada apenas em termos demográficos, mas também em termos intelectuais. A pergunta que fica é se as universidades brasileiras estarão dispostas a examinar esse debate com a mesma seriedade, sem reduzir a pluralidade acadêmica a uma disputa política imediata.

Marcelo Pacheco Machado

É advogado, doutor e mestre em Direito pela USP. Autor de livros e artigos na área do Direito Processual. Professor em cursos de pós-graduação em todo o país. Diretor da Escola Superior da Advocacia da OAB.ES. Sócio do BKM Advogados

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