Casagrade, Pazolini e secretários de Estado na assinatura do contrato para elaboração de Projetos Executivos do Centro Integrado de Perícia Técnico-Científica, em fevereiroCrédito: Divulgação/Polícia Civil
Se você perguntar ao governador Renato Casagrande (PSB) e ao prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini (Republicanos), como está a relação entre os dois, assim como a coluna perguntou, vai ouvir, de pronto, que a "relação é boa". Mas há sempre um mas.
Ainda em Vitória, mas longe da Cidade Alta, onde está localizado o templo, no entanto, há um terreno da discórdia, um acordo não cumprido. É ele o motivo de um "mas" subentendido na entrevista concedida por Casagrande.
Em seguida, Casagrande emendou: "Algumas coisas não deram certo, como a montagem do Centro Integrado de Perícia Técnico-Científica, num terreno na Fernando Ferrari que seria cedido pela Prefeitura de Vitória, mas ele (Pazolini) deu um passo atrás".
"Ele achou que era melhor ser a base da Guarda no terreno. O centro de perícia seria bom que fosse na Capital, não deu certo, mas vamos trabalhando", complementou.
Algumas horas depois, houve o evento no Saldanha da Gama. Pazolini não compareceu.
O prefeito tinha suas próprias agendas a cumprir no dia do aniversário da cidade. Em entrevista à Rádio CBN Vitória, num programa especial sobre a Capital, por exemplo, afirmou acreditar na união entre os governos federal, estadual e municipal: "Vitória pode dar exemplo de harmonia entre os Poderes".
Em seguida, ao ser questionado pela coluna sobre a relação com Casagrande, foi, da mesma forma, cordial e polido:
"É uma relação, assim, fraterna, bem tranquila, dialogo com o governador. Estivemos juntos hoje (dia 8) no evento da Catedral. Não tenho dificuldade nenhuma, a conversa é boa. A política tem o seu tempo e respeito muito o tempo da política, como fizemos na construção da candidatura para a prefeitura. Hoje o foco é gerir a cidade", contemporizou.
O projeto executivo promoveria, lá, a edificação de uma área de cerca de 8.500 metros quadrados.
R$ 1 milhão
É o valor apenas da elaboração do projeto para a construção do centro
“Para nós é uma satisfação poder colaborar nesse projeto, com a Prefeitura de Vitória cedendo a área, e eu tenho certeza de que será uma área de excelência. O resultado desse esforço conjunto será uma redução dos índices de criminalidade. Colocamos a Prefeitura de Vitória à disposição nesta e em outras batalhas”, disse o prefeito de Vitória, na ocasião (frise-se em fevereiro).
"Em um mesmo edifício serão integrados todos os serviços e seções dos Departamentos que compõem a Superintendência da Polícia Técnico-Científica (Criminalística, Medicina Legal, Identificação e Laboratórios Forenses) pertencente à Polícia Civil do Estado do Espírito Santo", registrou o governo do estado em texto de divulgação da iniciativa.
Pazolini é delegado da Polícia Civil. Ganhou notoriedade, antes de ingressar na política partidária, como titular da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente.
Agora, o governo pretende instalar o centro em outra área, já que não pode contar com o imóvel na Fernando Ferrari.
O QUE DIZ A PREFEITURA DE VITÓRIA
A Prefeitura de Vitória, por meio de nota, diz que "não deu certo" (aqui utilizo as palavras do governador, não citadas na nota) a cessão do terreno ao governo devido a uma espécie de lapso temporal. Quando o pedido formal de cessão foi feito pela administração estadual, a Guarda já ocupava o espaço.
A Secretaria Municipal de Segurança Urbana (Semsu) de Vitória informou que a área "está sendo utilizada como base operacional da Ronda Ostensiva Municipal (Romu), desde o dia 22 de julho de 2021, por apresentar amplo espaço e localização estratégica para a atuação, formação e treinamento dos agentes".
Sede da Ronda Ostensiva Municipal (Romu) de VitóriaCrédito: Divulgação/PMV
"O pedido de cessão, feito para a atual gestão municipal, foi apresentado no dia 16 de agosto deste ano, por meio de um ofício, isso é, após a data que referido imóvel já era efetivamente utilizado pela Romu", diz ainda nota enviada pela prefeitura.
Ocorre que em fevereiro, como já mencionado, Pazolini participou do evento de assinatura do projeto que previa a instalação do centro da Polícia Civil no local. Ou temos aqui um ingênuo imbróglio burocrático ou um ruído numa tensa relação política. E nada impede que sejam as duas coisas.
E O DINHEIRO GASTO COM O PROJETO?
Pode parecer uma coisa pequena, sem potencial para maiores dissabores ou com pouco efeito sobre o dia a dia da população do Espírito Santo. Mas há dinheiro público envolvido nesta história.
De acordo com o governo do estado, o projeto para a construção do Centro Integrado de Perícia Técnico-Científica já estava em andamento, "mas com a desistência da Prefeitura de Vitória, foi pedida a suspensão do contrato do projeto".
Estava previsto um gasto de R$ 1.071.000,00, no caso do terreno de Vitória, apenas para uma empresa fazer o projeto da obra, não a obra em si. Os valores podem ser alterados de acordo com a necessidade, após avaliação do novo terreno, ainda de acordo com o governo.
R$ 44 milhões
É quanto custaria a obra do centro, se realizada em Vitória
A obra estava prevista para custar aproximadamente R$ 44 milhões, também no caso de o centro ser construído em Vitória. O valor pode ser alterado devido à mudança de endereço.
O PASSADO
Pazolini foi deputado estadual durante dois anos. Deixou o mandato para assumir a prefeitura após ser eleito, em 2020, para comandar a Capital do Espírito Santo.
Integrantes do governo, como o secretário de estado da Saúde, Nésio Fernandes, chegaram a pedir, abertamente, votos para o adversário do republicano no segundo turno, o ex-prefeito João Coser (PT).
O REPUBLICANOS
Pazolini foi eleito deputado, em 2018, pelo PRP. Como a sigla deixou de existir, após fusão com o Patriota, ele pode deixar a legenda. Decidiu aportar no Republicanos, que lhe deu espaço para concorrer ao Executivo municipal.
No país, a legenda é conhecida como "o partido da Igreja Universal". De fato, tem raízes na denominação religiosa. Na prática, integra o Centrão, dá sustentação ao governo Bolsonaro, mas é flexível nos estados.
No Espírito Santo, o Republicanos tem feito movimentos de distanciamento em relação ao Palácio Anchieta.
O presidente da Assembleia Legislativa, Erick Musso (Republicanos), por exemplo, foi reeleito para comandar a Casa com apoio do governador, mas dia sim dia também critica a gestão estadual, apesar de colocar em pauta os projetos enviados por Casagrande que, via de regra, são aprovados sem pestanejar.
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espírito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiária no Gazeta Online/ CBN Vitória. Em 2008, passou a atuar como repórter da rádio. Em 2012, migrou para a editoria de Política de A Gazeta, onde exerce a função de editora-adjunta desde 2020.