A música sertaneja está bolsonarista, como já esteve lulista
Panela velha
A música sertaneja está bolsonarista, como já esteve lulista
Sérgio Reis exortou caminhoneiros contra o STF, mas em 2004 visitou Lula e elogiou o petista. Veja como sertanejos se relacionam com a política desde a Era Collor
Sérgio Reis, Eduardo Costa, Zezé Di Camargo e Gusttavo LimaCrédito: Reprodução Facebook
O cantor Sérgio Reis convocou, por conta própria, uma paralisação de caminhoneiros em apoio ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Entre outros pontos, exortou admiradores do chefe do Executivo federal a agir, em tom de ameaça, contra o Supremo Tribunal Federal (STF).
Após dizer não temer ser preso – “Não tenho medo de ser preso. Não sou frouxo. Não sou mulher. Cadeia é para homem” –, pediu desculpas, apresentou-se fragilizado e vida que segue.
O ritmo está embrionariamente ligado aos caminhoneiros, mas também à política e emana um retrato do Brasil. “A música sertaneja está bolsonarista, como já esteve lulista”, afirma Gustavo Alonso, mestre e doutor em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e autor de "Cowboys do asfalto: música sertaneja e modernização brasileira" (Civilização Brasileira, 2015).
Ele aponta para um certo preconceito, tanto da imprensa quanto do próprio meio acadêmico, em relação aos cantores e compositores do que se chama de sertanejo, ou caipira, desde outros momentos em que ícones do gênero associaram suas imagens a políticos da ocasião.
Alonso é professor do Departamento de Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
“A grande marca muito usada era de que o sertanejo foi trilha sonora da era Collor. Muitos atribuíram a ascensão do Collor à música sertaneja e vice-versa”, destacou.
“Em 1992 houve uma visita de sertanejos à casa do Collor (a casa da Dinda, mansão da família do então presidente Fernando Collor): Leandro e Leonardo, Chitãozinho e Xororó, por exemplo, foram mostrar apoio”, lembrou. Naquele ano, Collor sofreu impeachment.
“Mas a música sertaneja não é fruto da era Collor. Chitãozinho e Xororó vendiam mais de um milhão de discos desde 1982.”
“A música sertaneja esteve com Lula também. A música ‘Meu país’, fala de reforma agrária”, destacou Alonso. A canção foi originalmente lançada em 1998 e regravada em 2001.
"Se nessa terra tudo que se planta dá/ Que é que há, meu pais?/O que é que há? Tem alguém levando o lucro /Tem alguém colhendo o fruto/ Sem saber o que é plantar"
Zezé Di Camargo - Na música "Meu País"
“Sérgio Reis foi visitar Lula em 2004, deu um DVD a ele e disse que o Lula era a última esperança do Brasil. Além disso, ‘Dois filhos de Francisco’ (filme de 2005 que conta a história de Zezé Di Camargo e Luciano) foi considerado como um símbolo da ascensão da classe C, uma bandeira do governo Lula”, contou o autor de “Cowboys do Asfalto”.
Atualmente, Zezé levanta bandeiras alinhadas ao bolsonarismo.Já elogiou a ditadura militar e defende a adoção do voto impresso.
Sérgio Reis e Lula em 2004Crédito: Roberto Stuckert Filho
Outro expoente da música sertaneja ligado ao bolsonarismo é Gusttavo Lima, que defende a flexibilização de normas para compra de armas de fogo por civis.
Tem gente que apoiou entusiasticamente Bolsonaro em 2018 e depois se arrependeu. "O caso mais notório é o do Eduardo Costa, que fez uma música agora chamada 'Cuidado' em que critica políticos em geral, mas que, para os entendedores da música sertaneja, é também contra Bolsonaro", avisou o professor da UFPE.
Mas não é apenas no gênero sertanejo em que se encontram artistas bolsonaristas. “O sertanejo, como é o gênero mais popular do Brasil, ele representa o Brasil. Agora está caindo o apoio (a Bolsonaro), mas muita gente apoiou. A gente vê isso em outros gêneros também. Djavan, Toquinho, Nana Caymmi, da MPB, deram declarações de apoio (a Bolsonaro)”, lembrou.
Para esses, ou para esse gênero musical, muitas vezes “se passa pano”, ou seja, ignora-se ou minimiza-se as declarações deles, benevolência que raramente é concedida aos sertanejos.
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espírito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiária no Gazeta Online/ CBN Vitória. Em 2008, passou a atuar como repórter da rádio. Em 2012, migrou para a editoria de Política de A Gazeta, onde exerce a função de editora-adjunta desde 2020.