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Letícia Gonçalves

Quem vai pagar a conta da festa de Bolsonaro

Atos do dia 7 de setembro foram manifestação de força do presidente da República, inclusive no ES. Mas isso tem um preço

Públicado em 

09 set 2021 às 02:00
Letícia Gonçalves

Colunista

Letícia Gonçalves

Motociata de manifestantes pró-Bolsonaro, na Terceira Ponte
Manifestantes pró-Bolsonaro na Terceira Ponte Crédito: Fernando Madeira
Bolsonaro já ganhou. Calma, leitor! Não lamente ou comemore antes da hora. Esta coluna não faz referência ao resultado das eleições de 2022, mas a algo mais importante.
O presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), voltou a atacar, sem provas, a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro – o mesmo pelo qual ele se elegeu diversas vezes –, afirmou que não vai cumprir decisões judiciais e garantiu: “Nunca serei preso”. Não disse “nunca cometi crimes”, frise-se.
Com discursos a favor da “liberdade” e com cartazes escritos em inglês, apoiadores do presidente endossaram essas afirmações, ou negativas. Em Vila Velha, um trio elétrico partiu com uma faixa em defesa do ex-deputado federal Roberto Jefferson (PTB), neobolsonarista que está preso.
“Bob Jeff”, como foi denominado na faixa exibida pelo veículo, gravou e publicou vídeos exibindo armas e, em um deles, até ensinou a agredir policiais, incitou a prática de crimes. O ministro Alexandre de Moraes, do STF, entendeu que Jefferson integra "uma possível organização criminosa que tem por um de seus fins desestabilizar as instituições republicanas". Para os apoiadores do presidente, no entanto, o ex-parlamentar condenado no mensalão foi preso por “expressar opinião”.
Enquanto a inflação galopa e a vacinação contra a Covid-19 segue a passos lentos, a discussão imposta pelo presidente da República é sobre se vai haver ou não golpe no país; se Bolsonaro vai ou não respeitar o resultado das eleições de 2022 e se ameaçar pessoas de morte (outros bolsonaristas presos fizeram isso) é ou não liberdade de expressão.
Eis aí a vitória de Bolsonaro.
Manifestações públicas são legítimas e fazem parte do jogo democrático, cabe ressaltar. Mas usar esse direito democrático para ruir a própria democracia é um tiro no pé.
Vamos pensar um pouco: mesmo que discordemos de decisões do Supremo Tribunal Federal (STF), o que é legítimo – aliás integrantes do próprio Judiciário discordam de algumas delas –, o que acontece se passarmos a descumprir decisões, julgando, nós mesmos, quais são justas ou não? Para começar, é o fim do Judiciário enquanto instituição e isso não é trivial, não afetaria apenas magistrados.
Qual investidor vai querer aplicar recursos num país em que não se garante o mínimo de segurança jurídica? Um investimento que hoje é feito dentro da legalidade amanhã pode deixar de ser? Que peso tem o Real, enquanto moeda, se passar a ser o rosto de uma república de bananas? O dólar vai se valorizar ainda mais e muita coisa vai ficar (ainda) mais cara. Isso não é bom para ninguém. Nem para Bolsonaro.
Eis uma vitória de Pirro.
“As manifestações foram grandes, não podemos desconsiderar, mas têm um custo político para ele (Bolsonaro). A situação dele no Congresso não melhora, a situação dele no Judiciário não melhora”, avaliou o governador Renato Casagrande (PSB) em conversa com a coluna.
"Foi como uma grande festa e depois dessa festa eles têm que pagar a conta"
Renato Casagrande (PSB) - Governador do Espírito Santo
"São declarações que deixam o país numa posição instável. É grave. Mas algumas pessoas imaginavam o dia 7 mais grave do que foi. Foram palavras duras do presidente, mas, por enquanto, são palavras", ponderou o governador.
Já o deputado federal Evair de Melo (PP), um dos vice-líderes do governo na Câmara, afirmou que a instabilidade política tem sido colocada na conta apenas do presidente da República, mas foi o Supremo quem primeiro “esticou a corda”, com decisões que “desagradam o povo brasileiro”.
O parlamentar cita até o fato de o ministro Ricardo Lewandowski, então presidente do STF, ter mantido os direitos políticos da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) por ocasião do impeachment, em 2016.
A corda, todos sabem, sempre arrebenta do lado mais fraco. Não é o lado do Supremo e tampouco o do presidente da República.
O leitor pode argumentar que nem todo mundo pensa como Bolsonaro, afinal manifestações de rua não servem estatisticamente como aferição de apoio.
No Espírito Santo, em que, em 2018, o então candidato à Presidência recebeu mais votos do que a média concedida a ele no país, essa percepção pode até ser diferente.
A Secretaria de Estado da Segurança Pública estimou em até 100 mil o número de participantes do ato pró-Bolsonaro na Praça do Papa, em Vitória. Um número relevante e significativo.
Manifestação pró-Bolsonaro em posto de combustível na Praia da Costa, em Vila Velha
Manifestação pró-Bolsonaro teve concentração em posto de combustível na Praia da Costa, em Vila Velha Crédito: Letícia Gonçalves
Mas a popularidade do presidente, que ainda enfrenta acusações de corrupção, já não é lá essas coisas. Se seus apoiadores não “acreditam” em institutos de pesquisa, Bolsonaro acredita, tanto que as manifestações, com apoio oficial do governo, no último dia 7 são uma tentativa de dar uma resposta a isso.
Bolsonaro ainda vê atores importantes se distanciando, como parte do agronegócio, do empresariado e do setor financeiro. Até Salim Mattar, da Localiza, que integrou o governo Bolsonaro (foi secretário de Desestatização e Privatização do Ministério da Economia), assinou manifesto organizado por empresários mineiros pela democracia e contra a “ruptura pelas armas”.
Ocorre que o presidente tem um trunfo: a parcela do eleitorado que o apoia, se não é a maioria, tampouco é desprezível. São pessoas com camisa da CBF repetindo palavras de ordem nas ruas, como “eu autorizo”, sem saber ao certo o que autorizam; os que bradam defender a Constituição sem tê-la lido e os que pedem por liberdade imaginando que isso é algo a ser concedido por um governo autocrático, sem se dar conta da contradição.
Eu poderia aqui citar algum postulado da ciência política, mas prefiro ilustrar a situação com um diálogo exibido em The Boys, série da Amazon Prime Video (alerta de spoiler).
“Você não pode mais conquistar o país todo, ninguém pode. Não precisa que 50 milhões de pessoas amem você. Precisa de cinco milhões de pessoas putas da vida. Emoção vende, raiva vende. Vocês têm fãs. Eu tenho soldados”, ensinou Tempesta ao Capitão Pátria no episódio 4 da segunda temporada.

Letícia Gonçalves

Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espírito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiária no Gazeta Online/ CBN Vitória. Em 2008, passou a atuar como repórter da rádio. Em 2012, migrou para a editoria de Política de A Gazeta, onde exerce a função de editora-adjunta desde 2020.

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