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Presidente do PL

"Anormal" e "infame": vereador da Serra faz contorcionismo para explicar discurso

Igor Elson assumiu, no sábado (4), a presidência municipal do PL. No evento, atacou a gestão do prefeito Sérgio Vidigal (PDT) e criticou a Semana do Orgulho LGBTQIA+. À coluna, disse que foi "mal interpretado". Veja vídeo

Públicado em 

06 mar 2023 às 19:02
Letícia Gonçalves

Colunista

Letícia Gonçalves

O vereador da Serra Igor Elson assumiu, no último sábado (4), a presidência do PL na cidade. No evento que marcou a data, lotado de correligionários e outras lideranças do partido, o parlamentar criticou a gestão do prefeito Sérgio Vidigal (PDT) e usou as palavras "anormal" e "infame" para se referir à Semana do Orgulho, voltada à comunidade LGBTQIA+.
Vidigal é evangélico e, em tese, conservador, mas integra uma legenda progressista.
Na Serra, em junho do ano passado, a Semana do Orgulho contou com palestras e apresentações artísticas. “Esse mês representa o momento social histórico do orgulho LGBTI+, daí a importância das discussões sociais ao incentivar a reflexão sobre os avanços obtidos até presente data”, afirmou, na ocasião, a secretária de Direitos Humanos e Cidadania, Lilian Mota.
"Faz uma semana de evento favorecendo LGBTQI+. Você não ouve se falar nada sobre família, sobre casamento, sobre nada. Querem imperar a troca de valores. Querem pegar o que é normal e colocar como anormal e pegar o anormal e colocar como normal. Enquanto nós estivermos vivos, nós estaremos firmes combatendo isso", discursou Igor Elson, no último sábado.
Em seguida, afirmou que respeita "o direito de cada um", mas voltou a usar expressões discriminatórias.
"Nós respeitamos a postura e o direito de cada um. Agora, oficializar aquilo que é anormal, infame e que nós entendemos que traz prejuízo para a sociedade ... o PL vai estar firme, junto com vocês, para combater essa ridicularidade", complementou.
Recebeu palmas da maioria dos presentes. Em posição de destaque na mesa do evento estava o presidente estadual do PL, senador Magno Malta.
O vice-prefeito, Thiago Carreiro (União Brasil), também estava lá e aplaudiu as declarações de Igor Elson. O vice, hoje, faz oposição a Vidigal.
O deputado estadual Pablo Muribeca (Patriota), com seu indefectível chapéu, endossou, com palmas, parte do discurso do vereador.
Igor Elson, de camisa amarela, em evento do PL na Serra
Igor Elson, de camisa amarela ao centro da mesa, em evento do PL na Serra Crédito: Divulgação
Conforme informa o site da Câmara da Serra, Igor Elson tem 43 anos, é "casado, pai de duas filhas, membro da igreja Maranata há 24 anos como obreiro".
Em entrevista à coluna na tarde desta segunda-feira (6), ele negou ter chamado homossexuais e outros integrantes da comunidade LGBTQIA+ de anormais, embora o vídeo do discurso não dê muita margem para outra leitura do episódio.
Questionado sobre o que, então, chamou de anormal e infame, apelou para o clássico "fui mal interpretado" e respondeu o seguinte:
"É anormal a política do prefeito. O prefeito quer trocar o normal pelo anormal. Anormal é não não atender a todos os setores, a falta de equidade, já que a prefeitura não investe em outros segmentos".
"Não vou pedir desculpas porque não sinto que ofendi. Não tive intenção de ofender ninguém do movimento LGBT"
Igor Elson (PL) - Vereador da Serra
A coluna quis saber se Igor Elson considera homossexuais ou quaisquer pessoas que não sejam heterossexuais como anormais.
"Em hipótese alguma. São seres humanos como eu. Tenho familiares homossexuais, já trabalhei com homossexuais", defendeu-se.
CRIME DE HOMOFOBIA
Para além de ser ofensivo chamar pessoas de anormais devido a sua orientação sexual, isso pode configurar crime de homofobia.
O vereador é graduando em Direito e, certamente, sabe disso.
Argumentou veementemente não ter dito o que apenas com muita boa vontade e contorcionismo retórico poderíamos aceitar que não disse.
Em 2019, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que a homofobia é um crime imprescritível e inafiançável, com pena de um a três anos de reclusão e multa.
A pena máxima é inferior a quatro anos, logo, é improvável que alguém cumpra prisão em regime fechado por isso.
Via de regra, um condenado não reincidente tem a pena substituída por medidas alternativas, como prestação de serviço à comunidade, de acordo com o previsto no Código Penal.
"Ninguém, sob a égide de uma ordem democrática justa, pode ser privado de seus direitos (entre os quais o direito à busca da felicidade e o direito à igualdade de tratamento que a Constituição e as leis da República dispensam às pessoas em geral) ou sofrer qualquer restrição em sua esfera jurídica em razão de sua orientação sexual ou de sua identidade de gênero", diz o acórdão (decisão colegiada) do Supremo de 2019.
O vereador Igor Elson, na melhor das hipóteses, considera que, ao promover a Semana do Orgulho, a Prefeitura da Serra está tratando grupos populacionais desigualmente.
Em vez de discriminados constantemente e alvos de violência apenas devido a sua orientação sexual, o parlamentar vê a comunidade LGBTQIA+ como privilegiada.
Se a prefeitura distribuir comida ou um auxílio para as pessoas que estão abaixo da linha da pobreza e passam fome, as que fazem, sem muita dificuldade, ao menos três refeições por dia às próprias custas estariam sendo menosprezadas?
Igor Elson se queixa de que não há eventos para incentivar "a família", ignorando que há famílias e uniões de diferentes configurações, inclusive com pais e mães LGBTQIA+.
O vereador declarou-se também um defensor do casamento. Ele é apoiador do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que se casou três vezes, violando sacramentos religiosos.
Para benefício de alguns, "a palavra" pode ser flexibilizada e adaptada ao século XXI, o que é salutar e civilizatório.
Infelizmente, essa regra não vale para todos.
ESTRATÉGIA
Não poderia deixar de mencionar que o eleitorado da Serra, e do Espírito Santo em geral, é conservador.
Chamar um homossexual de "anormal" ou, vá lá, uma política pública que tenta tornar o mundo um lugar menos horrível para ele de "infame" pode agradar a esse público.
A sanha de fiscalizar o comportamento sexual alheio é tanta que suplanta questões mais prementes, como a qualidade dos serviços públicos, o grau de honestidade dos políticos e as contradições de seus discursos.

Letícia Gonçalves

Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espírito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiária no Gazeta Online/ CBN Vitória. Em 2008, passou a atuar como repórter da rádio. Em 2012, migrou para a editoria de Política de A Gazeta, onde exerce a função de editora-adjunta desde 2020.

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