Fazia menos de 10 graus às seis da manhã desta terça-feira, em Guaçuí. A visibilidade era baixa, a paisagem estava encoberta pela neblina, quando os moradores da Rua Emiliana Emery, uma das mais conhecidas da “Pérola do Caparaó”, foram despertados pela alvorada da Lira Santa Cecília, que tocava para o aniversário de 107 anos de dona Flordelis, a moradora mais antiga da cidade.
Bem-disposta, dona Flordelis já estava acordada há muito tempo – “já levantei muito antes do dia amanhecer, para fazer meu café, mas hoje vou acordar muito cedo para ficar à toa?”, questiona Flordelis Siqueira de Paula, seu nome completo.
Ao ouvir a música tocada do meio da rua, dona Flor foi à janela receber a homenagem e acompanhou, cantando, os dobrados executados pela Lira Santa Cecília, fundada em 1976.
Por cerca de meia hora, a banda tocou para homenagear aquela que é considerada a madrinha de todo mundo na cidade, como atesta Renata Silva Tomaz, 32 anos, que mora bem em frente e registrou o momento em vídeos que ganharam as redes sociais. “Desde que nasci, a madrinha Flor é desse jeitinho. Eu me considero bisneta dela”, conta Renata, mostrando o carinho que tem pela idosa.
Dona Flordelis em sua casa em Guaçuí: vida simples, o segredo da longevidadeCrédito: Danielle Muruci
Não é para menos. Dona Pitita, uma índia puri “capturada a laço”, bisavó de Renata, era a melhor amiga de dona Flor, nascida na própria cidade. Ela guarda datas de tudo, atendeu a reportagem falando ao telefone, apesar de reclamar que já não escuta nem enxerga direito.
Da Gripe Espanhola ela se lembra que tinha 5 anos e morava numa fazenda em Carangola (MG). Seus pais descendiam de escravos africanos que trabalhavam nas fazendas da região nos tempos áureos da ocupação no século XIX, quando chegaram famílias mineiras e paulistas para explorar a cultura do café.
Dona Pitita e dona Flordelis foram as primeiras moradoras da rua. A idade cresceu em torno das duas. “Eu me casei em 1933 e em 1935 me mudei para essa casa onde moro até hoje”, diz com orgulho. O marido, Dorciano Antonio de Paula, morreu em 1998 aos 93 anos. Se estivesse vivo, estaria com 115 anos. Não tiveram filhos, mas adotaram as duas filhas: Neusa, que a assiste diariamente, e Regina, que mora em Vitória.
Conheceu o marido na Fazenda da Cachoeira, no município, onde ele era carreiro de boi. “A fazenda era do José Miranda, que vendeu para o Leonídio Cavalheiro. Depois, o Leonídio vendeu para o seu Virgílio de Aguiar, pai do Doutor Chiquinho, que foi governador."
O escritor e poeta Webber Muller, também vizinho, fala com carinho da centenária moradora: “Ela é uma gracinha. Trabalhou a vida inteira como doméstica, lavadeira, enfrentou todos os desafios para criar os filhos. Está completamente lúcida; se deixar, ela lava, cozinha, passa, faz artesanato”. Mas dona Flor, que se dedica ainda ao artesanato de crochê, tem a companhia de uma moça, que hoje faz as coisas para ela.
Pelo telefone, dona Flor conversaria horas se deixasse. Gosta de música, de dança – “já dancei muito, meu filho” -, e dá uma boa gargalhada. De comida, gosta de coisas simples: angu, feijão, verdura, pouca carne e pouco arroz. Admite que toma uma cervejinha e um vinho de vez em quando. Nunca fumou. Dorme cedo e, hoje, acorda mais tarde.
“A memória dela acho que é melhor do que a minha”, admite Edson, o genro, marido de Neusa. “A gente vai pra lá ouvir histórias e ela lembra de todas as datas, inclusive do dia em que assassinaram o pai dela na fazenda onde moravam. Mas não demonstra mágoa de nada e nem de ninguém”, pondera.
Dona Flor nasceu alegrense, em 1913, no então distrito de São Miguel do Veado, alusão ao rio que nasce pelas bandas do Pico da Bandeira e serpenteia entre montanhas, atravessa o vale onde está o aglomerado urbano, até desaguar no Itabapoana, na divisa com o Estado do Rio. O distrito emancipou-se em 1928, com o nome simplificado para Veado, junto com os distritos de Divino de São Lourenço e Dores do Rio Preto. A denominação de Guaçuí (em tupi, “águas do veado”) somente surgiu em 1943.
Hoje, Guaçuí é a cidade que mais cresce na região. Em 2019, segundo estimativas do IBGE, ultrapassou a população do município-mãe. Essa é uma história testemunhada ao longo dos últimos 107 anos por dona Flordelis, uma das pessoas mais longevas do Espírito Santo na atualidade.
Iniciou sua historia em A Gazeta em 1996, como redator de Esporte e de Cidades. De la para ca, acumula passagens pelas editorias de Policia, Politica, Economia e, como editor, por Esportes e Brasil & Mundo. Tambem atuou no Caderno Dois e nos Cadernos Especiais e editou o especial dos 80 anos de A Gazeta. Desde 2010 e colunista. E formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo.