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  • O percurso da gripe espanhola até chegar ao Espírito Santo, em 1918
Praça João Miguel, na Serra, em 1908
Praça João Miguel, na Serra, no início do século XX: em 1918, o ES enfrentou a gripe espanhola Acervo do Iphan-ES
Pandemia

O percurso da gripe espanhola até chegar ao Espírito Santo, em 1918

Em 1919, Bernardino de Souza Monteiro, então presidente do Estado, informou que 0,8% da população de Vitória morreu em decorrência da doença

Publicado em 16 de Maio de 2020 às 10:00

Publicado em

16 mai 2020 às 10:00
Praça João Miguel, na Serra, em 1908
Praça João Miguel, na Serra, no início do século XX: em 1918, o ES enfrentou a gripe espanhola Crédito: Acervo do Iphan-ES
  • Sebastião Pimentel Franco

    É professor do Programa de Pós-Graduação em História/Ufes
Em 1918, uma nova epidemia volta a assustar o mundo, a gripe espanhola. A velocidade do contágio dessa enfermidade, uma vez que o período de incubação era curto, a forma como se espalhou e acometeu um elevadíssimo número de pessoas, assim como o alto grau de letalidade, resultando num assustador número entre 50 e 100 milhões de mortos em todas as regiões alcançadas, levam-nos a dizer que a gripe espanhola transformou-se numa pandemia.
Tão logo a doença se manifesta na Europa em 1918, já começam a aparecer na imprensa brasileira notícias sobre ela, sobretudo após a esquadra médica enviada pelo governo brasileiro em apoio aos aliados, então estacionada no porto de Dacar, ter sido vítima daquela moléstia fulminante.
Essa doença recebeu o nome de gripe espanhola devido ao fato de as autoridades espanholas terem admitido a sua existência e a terem noticiado pela imprensa local e mundial, enquanto outros países que participavam da Primeira Guerra Mundial censuravam notícias da doença.
Não se sabe a origem dessa enfermidade; para uns, as epidemias de gripe se desenvolveram na Ásia e a partir daí se espalharam pelo mundo. Em 1918, aparecem simultaneamente em diversas localidades na Europa, Ásia e América do Norte. A historiadora Christiane Maria Cruz de Souza (2014, p. 220) afirma que a origem da gripe espanhola é desconhecida, embora “[...] a primeira onda da pandemia, ocorrida em março de [1918] tenha sido melhor descrita nos Estados Unidos”.
No Brasil, a epidemia teria chegado por volta do mês de setembro de 1918, trazida por tripulantes do navio inglês Demerara, vindo de Lisboa. Em Recife, Salvador e no Rio de Janeiro, tripulantes doentes desembarcam, espalhando o vírus nessas cidades. No mesmo mês, soldados brasileiros doentes vindos de Dacar chegaram ao porto de Recife. Rapidamente a doença se espalha pelo Brasil atingindo todas as regiões, de norte a sul do país.
Embora a epidemia fosse uma realidade, as autoridades governamentais, assim como aponta o historiador norte-americano Charles Rosenberg (1992), a reconheciam quando não era mais possível esconder o fenômeno, uma vez que o número de enfermos e mortos estava tomando proporções alarmantes. Havia um desacordo dos médicos em determinar a origem da doença, acreditando que poderia ser a tradicional e velha conhecida gripe.

OS SINTOMAS DESCRITOS EM JORNAL DO ES

A incerteza sobre não impediu que os médicos pudessem caracterizar a epidemia. Segundo o jornal Cachoeirano, eram as seguintes as características da doença: “[...] invasão brusca com catarro, das vias aéreas superiores, temperatura em regra muito alta, prostração, e por vez, perturbações digestivas” (28 de novembro de 1918, f. 2). A sua transmissão dar-se-ia pelo ar, daí se dizer que a única medida profilática eficaz seria evitar a permanência em lugares fechados, onde houvesse aglomeração de pessoas (28 de novembro, f. 2).
Para se evitar a propagação da doença se deveria impedir contato com outras pessoas e locais onde o aglomerado fosse uma realidade. O medo do contágio dos sãos com os enfermos resultava numa repulsa daqueles que não haviam contraído a doença. Assim, o isolamento passou a ser uma prática cotidiana daqueles que se sentiam ameaçados, o que certamente levava ao sentimento de tristeza, abatimento, apreensão e incerteza.

RECOMENDAÇÕES MÉDICAS

O fato de não se saber ao certo que medicamentos seriam mais eficazes no combate à doença não significa que indicações não fossem recomendadas pelos médicos. Era indicado dieta, que consistia em repouso por oito dias após terminada a moléstia. A alimentação deveria ser: caldo de carne, frango, cereais, legumes, mingaus, café, leite, chá, pão torrado, bolachas. Indicava-se ainda que os convalescentes dormissem regularmente e evitassem resfriamentos (Espírito Santo, 8 de dezembro de 1918, f. 2).
O jornal Cachoeirano noticiou também informações aconselhando os seus leitores para preveni-los da gripe espanhola. Foram estes os conselhos: a) vacinar-se ou revacinar-se contra a varíola; b) fazer a assepsia da boca, da garganta e das narinas com água fria ou morna; c) usar infectantes, como água oxigenada, líquido de Dakin ou listerina, que serviriam para a desinfecção e limpeza da garganta; d) para as narinas, o mais aconselhado era a lavagem frequente com pano ou lenço embebido com solução boricada alcoolizada; e) fazer uso diário de sal de quinino na dose de 25 centigramas; f) seguindo conselhos de médicos suíços, eram indicados gargarejos com água salgada, na proporção de 10 gramas de cloreto de sódio para um litro de água; g) evitar fadigas; h) evitar lugares onde houvesse aglomeração de pessoas (10 de dezembro de 1918, f. 2). Na documentação coligida, encontramos informações da presença da epidemia em todas as localidades.
“A epidemia da gripe nos últimos dias de setembro [1918] pouco depois de ter aparecido no Rio de Janeiro, começou a assolar esta Capital e todo o interior do Estado, obrigando-nos a grandes gastos no soccorro da população, que foi atacada pelo mal na proporção de mais de 70% (Espírito Santo, 1919, p. 39).”

DOAÇÕES PARA OS NECESSITADOS

Paralelamente à ação do Estado, pessoas de posses e entidades se associavam e contribuíam para socorrer os aflitos pelo mal epidêmico. Encontramos, no jornal Cachoeirano, lista com 107 doadores. Além dos valores em dinheiro, o mesmo jornal apresenta ainda a listagem de mais sete pessoas que doaram gêneros alimentícios para socorrer os pobres da cidade (17 de novembro de 1918, f. 2).
Não se sabe com exatidão quantas pessoas morreram no Brasil por causada gripe espanhola. Em sua Mensagem de Governo, o presidente do Estado do Espírito Santo, Bernardino de Souza Monteiro, diz: “Na capital Ella [gripe espanhola] matou na proporção de 0,8% da população, e é crer que egual coefficiente foi attingido em todo Estado” (Espírito Santo, 1919, p. 39). A gripe espanhola atingiu todos os segmentos da sociedade. Pobres, indigentes, remediados e mesmo pessoas das camadas mais privilegiadas social e economicamente foram vítimas da epidemia. l

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