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Leonel Ximenes

Cadê aquele Centro de Vitória que conheci quando criança?

Cenário é de abandono e desolação. Muito diferente daquela época em que ia com minha mãe à região tomar um caldo de cana na Praça Oito. É preciso agir

Públicado em 

21 mar 2022 às 02:09
Leonel Ximenes

Colunista

Leonel Ximenes

Prédios comerciais fechados na Av. Jerônimo Monteiro, a principal do Centro de Vitória
Prédios comerciais fechados na Av. Jerônimo Monteiro, a principal do Centro de Vitória Crédito: Ricardo Medeiros
Foi chocante, à falta de uma palavra melhor para definir o que vi, no começo de tarde de quinta-feira passada (17), ao percorrer algumas das principais vias do Centro de Vitória. Chocante porque ainda está viva na minha memória passeios maravilhosos, com a minha mãe, à “cidade”, como nós de Vila Velha nos referíamos à nossa Capital nos anos 1970 e 80. Hoje, lamentavelmente, aquele cenário encantador não existe mais. O que se vê agora é abandono, decadência e desalento.
Admito que essa minha sensação de choque pode ter sido meio ingênua, haja vista que há muito se comenta que o Centro de Vitória vem passando por um esvaziamento progressivo que não faz jus à sua importância histórica. Mas nesta quinta, ao passar de carro pela Avenida Jerônimo Monteiro e pela Vila Rubim, vi com meus olhos o que não queria acreditar, e que jamais imaginei que pudesse acontecer.
Vi a principal via do Centro vazia, sem vida, com quase metade dos seus pontos comerciais simplesmente fechados ou exibindo placas em suas fachadas ofertando aluguéis, como se fosse um grito de socorro. O mesmo quadro se repetiu na Vila Rubim, região de comércio popular que outrora pulsava no ritmo da tão decantada Cidade-Presépio.
O cenário de desolação não se limita ao comércio. Os prédios do Centro de Vitória também estão feios, sujos, abandonados, situação que assusta e não favorece a atração de novos empreendimentos.
Nas calçadas, se veem poucos pedestres num cenário bem diferente do de algumas décadas atrás, quando a região fervilhava. Até a tradicional aglomeração nos pontos de ônibus está mais contida. Não por falta de coletivos, mas por falta de gente. Parece que as pessoas não estão querendo sair mais dos seus bairros para se aventurarem ali.
Nada mais me lembra aquela região à qual eu ia de ônibus, com minha saudosa mãe, para fazer pequenas compras, mas, na realidade, com o desejo ardente de tomar um delicioso caldo de cana geladinho com pastel na lanchonete Lira ou Ita, defronte à Praça Oito. Como era bom! Era uma época em que não havia lanches tipo gourmet ou premium, como está na moda. Mesmo com pouquíssimo dinheiro, a gente era feliz - e sabia.
Não quero aqui apontar culpados pela decadência da região histórica da nossa Capital. O problema não começou hoje, embora a pandemia certamente tenha acelerado esse processo de ruína que já estava em curso. Mas é urgente que o poder público e a sociedade se mobilizem. Não podemos deixar a nossa história morrer de inanição.
O Centro de Vitória ainda conserva belos prédios históricos, monumentos e praças. A sede do governo ainda está lá. Na região, o samba e a boa música resistem e pulsam em pequenos bares no entorno da Rua Sete. Mas é preciso que a discurseira e as promessas vãs deem lugar a ações concretas.
Estado, prefeitura, empresários e sociedade civil têm que debater com urgência um plano de recuperação do Centro. Prédios históricos, como o Mercado da Capixaba, têm que ser revitalizados; o Mercado da Vila Rubim, como em várias cidades do mundo, pode se transformar num grande centro gastronômico, cultural e de lazer, sem que a população no entorno e os pequenos comerciantes que lá atuam sejam desprezados e esquecidos.
Empresários e comerciantes devem receber incentivo fiscal e financiamento para se instalarem no Centro. A cultura e o lazer devem ser incentivados pelo poder público e pela iniciativa privada. Ruas, avenidas, escadarias e outros equipamentos públicos merecem um cuidado especial.
Em outras palavras: o Estado do Espírito Santo tem um compromisso ético e histórico com a região. É hora de agir. O centro histórico de qualquer cidade do mundo é um ativo valioso que, se bem cuidado e administrado, pode gerar empregos, riquezas e oportunidades.
Eu quero de volta o doce prazer de andar pelo Centro, o doce prazer de tomar um caldo de cana em família. Não quero mais sentir o gosto amargo da decadência e do abandono.
Posso pedir mais um caldo de cana, mãe?

Leonel Ximenes

Iniciou sua história em A Gazeta em 1996, como redator de Esporte e de Cidades. De lá para cá, acumula passagens pelas editorias de Polícia, Política, Economia e, como editor, por Esportes e Brasil & Mundo. Também atuou no Caderno Dois e nos Cadernos Especiais e editou o especial dos 80 anos de A Gazeta. Desde 2010 é colunista. É formado em Jornalismo pela Universidade Feedral do Espírito Santo.

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