O que são valores? Valores podem ser definidos como os princípios que norteiam o comportamento e a personalidade de um cidadão, considerando que esses mesmos princípios devem valer para toda a sociedade, para possibilitar uma convivência civilizada.
Os valores funcionam como um código de conduta ou regras silenciosas, que fazem com que cada indivíduo atue na sociedade, integrando-a e adequando-se a ela. Quando uma pessoa orienta sua conduta de acordo com seus valores e, ainda que não esteja sendo observada, age sempre da maneira correta, pode-se dizer que ela age com integridade.
Resolvi tratar deste tema nesta semana ao observar o que considero um verdadeiro absurdo, e que revela uma das piores faces de nossa sociedade: as fraudes na fila de vacinação de portadores de comorbidades.
A emissão de atestados falsos para pessoas saudáveis tem sido alvo de investigação em vários Estados. Em Divinópolis (MG), a prefeitura investiga 200 casos, a maioria de jovens que alegam ter pressão alta e diabetes e até homens que se inscreveram como “grávidas”. No Espírito Santo já há lei prevendo multa de R$ 58 mil para quem for vacinado fora da ordem. Em caso de agente público, a multa dobra para R$ 116 mil.
Esse fura-fila é parente da carteirada e do jeitinho, no pior sentido. São sintomas de uma sociedade desigual, injusta e que vive uma crise de valores. Superá-la é um desafio histórico, essencial para o nosso desenvolvimento econômico e social, e que depende fundamentalmente do empenho de nossas lideranças políticas.
Em seu livro “Integridade Governamental e Empresarial”, o advogado e professor Marcelo Zenkner fala sobre a integridade e a coerência. Integridade pressupõe uma estrutura interna de princípios éticos universais. E é preciso coerência: o indivíduo que reclama da corrupção pública não pode sonegar impostos – nem furar a fila da vacina ou desrespeitar o sinal vermelho.
Vale lembrar a máxima de Immanuel Kant: “São injustas todas as ações que se referem ao direito de outros homens, cujas máximas não se harmonizem com a publicidade”. Em outras palavras: tudo aquilo que você não puder contar como fez, não faça. Parece simples? Bem, não é o que vemos.
O antídoto poderia estar na observância das técnicas de compliance, expressão que ganhou projeção no mundo corporativo e no setor público com os recentes escândalos de corrupção no país. Entretanto, como sugere Zenkner em seu livro, a solução está na implementação de efetivos sistemas de integridade, tanto no âmbito público como no privado.
Sistemas dessa natureza vão muito além da prevenção de práticas ilícitas, pois objetivam a disseminação e a absorção da cultura de fazer aquilo que é correto. Os sistemas de integridade, sem descartar o compliance, possuem, entre os seus elementos, o propósito, a transparência, a meritocracia, a lealdade competitiva, a inovação, a responsabilidade social, a sustentabilidade e a reputação ilibada.
Esses valores são muito mais importantes para a construção de uma nação do que se pode imaginar. Não por acaso, os países com maior IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) são também os que possuem menor percepção de corrupção.
O Índice de Percepção da Corrupção da Transparência Internacional é o principal indicador de corrupção do mundo. Os países mais bem avaliados são Dinamarca, Nova Zelândia e Finlândia. Os mais mal avaliados são Venezuela, Iêmen e Síria.
O ranking de 2020 mostra o Brasil estagnado há quase dez anos. Em 180 países, estamos em 94º lugar, atrás de Colômbia, Turquia e China, abaixo da média dos Brics e da média regional da América Latina. Desempenho incompatível com o tamanho de nossa economia e com o nosso potencial.
O Brasil de hoje, de certa forma, faz lembrar o Espírito Santo dos anos 90: desorganização política, fiscal e administrativa, tensão entre os poderes públicos, uma elite política sob desgaste, uma crise institucional e de valores no andar de cima, que contamina todo o tecido social.
Com a eleição do ex-governador Paulo Hartung, em 2002, o Estado iniciou um processo de concertação em torno da recuperação ética, administrativa e orçamentária, que resultou em outro padrão de relacionamento entre os setores público e privado, com notável melhoria no ambiente de negócios e na qualidade de vida da população.
Interessante observar que os avanços foram preservados em gestões subsequentes e se consolidaram como um patrimônio da sociedade.
O Espírito Santo, gradualmente, equilibrou as contas públicas, passou a pagar em dia o funcionalismo, com repercussões positivas no comércio, reduziu o índice de homicídios, avançou na educação pública e atraiu mais investimentos, indicando que, sim, é possível superar aquele desafio histórico por meio da política, do diálogo e da construção de consenso sempre aderentes aos valores da integridade.
Uma nação, assim como uma empresa ou uma família, que não caminha sobre os trilhos da integridade e, assim, deixa de lado os valores mais nobres e sólidos, não costuma prosperar. Certamente não é esse o Brasil que desejamos. Mas lembrem-se: o Brasil é resultante do comportamento de cada um de nós.