Domingo de carnaval, a mais brasileira de todas as festas, um marco de nossa identidade cultural que nos projeta mundo afora e que representa muito mais do que três dias de folia e alegria. Além de diversão, carnaval é big business: estimula o turismo, o comércio e faz a economia girar.
Um bom exemplo é o Carnaval de Vitória, que vem se profissionalizando a cada ano, com a decisão acertada da Prefeitura da Capital de, a partir dos anos 90, realizá-lo com uma semana de antecedência. Assim, possibilitamos a atração de turistas de todo o país, com a transmissão dos desfiles pela TV Gazeta, dando cada vez mais visibilidade à festa.
Dados da prefeitura e da Federação do Comércio do Espírito Santo indicam que, no ano passado, quando o carnaval foi em abril devido à pandemia, os desfiles atraíram em torno de 12 mil turistas, com ocupação de 90% da rede hoteleira e movimentação financeira de R$ 20 milhões, gerando cerca de 5,3 mil empregos diretos e indiretos.
Neste ano calculou-se movimentação de R$ 25 milhões, com um público de 80 mil pessoas ao longo dos desfiles. Devemos cada vez mais investir no potencial turístico do evento, que tende a crescer.
A origem do carnaval perde-se na história: ela remonta à Idade Média, sendo que alguns historiadores sustentam que a festa herdou elementos de civilizações da antiguidade, dos povos mesopotâmicos, gregos e romanos.
Desde os tempos mais remotos ela esteve ligada à celebração do prazer e da fantasia: uma pausa na realidade dura do dia a dia para extravasar desejos, sonhos e apetites. No Brasil, chega a ser um marco temporal decisivo: dizem que o ano só começa depois do carnaval. Nem sempre.
De certa forma o ano já começou tenso no Brasil, com a posse do novo governo, a invasão dos três poderes em 8 de janeiro, as incertezas da nova administração e o recente choque entre o presidente da República e o presidente do Banco Central em torno da taxa dos juros, que marcou a semana passada – as taxas são realmente abusivas, o governo, de sua parte, precisa também deixar claro qual será a sua âncora fiscal, para atacar a doença, e não o sintoma, mas isso é assunto para depois, quando o país retomar a normalidade.
Voltando ao ritmo do carnaval. O desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro, o carnaval mais famoso do mundo, começou em 1932, por iniciativa do jornalista Mário Filho, o irmão de Nelson Rodrigues que dá nome ao Maracanã.
Mário Filho era dono do jornal “Mundo Esportivo”, e resolveu promover uma disputa entre as escolas de samba: originalmente elas saíam às ruas sem qualquer competição. A vencedora do primeiro desfile foi a Mangueira, seguida de Portela, que na época se chamava Vai Como Pode, da Estácio e da Unidos da Tijuca.
O curioso é que Mário Filho resolveu promover a competição entre as escolas por absoluta falta de assunto para cobrir na área esportiva, nas primeiras semanas do ano. Sua ideia despretensiosa virou um dos principais produtos brasileiros.
Neste ano, o setor do turismo deve movimentar mais de R$ 8,1 bilhões no país todo durante o carnaval, segundo estimativa da Confederação Nacional do Comércio, divulgada no fim de janeiro. Deverá ser a segunda maior movimentação dos últimos 11 anos, perdendo apenas para 2020, quando o volume das atividades chegou a R$ 8,47 bilhões.
Os números são grandiosos, mas temos potencial para muito mais. Em recente artigo no Valor Econômico, o publicitário Nizan Guanaes destacou que em países como EUA, França, Itália e Reino Unido o turismo, o entretenimento e a cultura são levados muito a sério. No Brasil, não temos uma política adequada para o setor.
“Carnaval é entretenimento e turismo na veia. É uma olimpíada que acontece no Brasil todo ano. Temos que embalar melhor. A embalagem muitas vezes é mais importante que o produto, e olha que o carnaval é um excelente produto. O desfile das escolas de samba precisa de uma remodelada como foi dada na Fórmula 1”, sustenta Nizan, com toda razão.
Vale também para o futebol, que precisa ser visto como o business que é na Europa e nos EUA, com times listados na bolsa de valores, assim como a cultura e os museus, que precisam deixar de ser vistos como despesa, para serem vistos como fonte de receita. É só ver o que os americanos fazem com o basquete, o cinema e a música, em cerimônias do Oscar e do Grammy, que movimentam bilhões de dólares.
Para o folião, carnaval pode ser só alegria, mas os governos em todas as esferas devem ver no evento uma fonte de receita e de geração de negócios. Diversão e arte também geram riqueza e devem ser levadas a sério pelo poder público. Mas isso pode ficar para a Quarta-Feira de Cinzas. Um bom carnaval a todos!