Os próximos passos do Capitão Bolsonaro são previsíveis. Ele repetirá exaustivamente que nada pôde fazer para combater a pandemia porque foi impedido pelo Supremo. Dirá que ele e seus seguidores sofreram perseguição dos ministros do STF que teriam agido como políticos e não como magistrados.
Se for impedido de disputar as eleições, dirá que foi vítima de uma armação iniciada quando o STF tirou Lula da prisão e anulou as suas condenações. Se disputar as eleições, mesmo se for o vencedor, insistirá que houve fraude porque as urnas eletrônicas não são confiáveis. E, se for derrotado, tal como seu ídolo Trump, sustentará o mesmo discurso para se manter em evidência após ser defenestrado do Palácio do Planalto.
Bolsonaro cairá atirando, posando de vítima do “sistema”, para tentar encobrir o fracasso de seu governo. Com relação ao combate à pandemia, a incompetência foi escancarada pela sustentação de um negacionismo retrógrado, pelo flagrante retardamento da vacinação e pela proliferação de picaretas descoberta pela CPI do Senado.
A decisão do Supremo, utilizada como desculpa por Bolsonaro, sabem todos os brasileiros, não tirou poder do governo federal e tão somente reconheceu o direito de Estados e municípios de adotar as medidas que achassem necessárias para combater a Covid-19, como o isolamento social e a restrição a atividades não essenciais.
Mas nem só no combate à pandemia fracassou o governo. Até a recuperação da economia, que parecia assegurada, está ameaçada pela obsessão do presidente pela reeleição: a substituição do Bolsa Família pelo Auxílio Brasil estoura ainda mais o teto dos gastos públicos e exige o calote nas dívidas judiciais. É assustador, também, o desastre ambiental evidenciado no aumento, nos últimos onze meses, de 51% no desmatamento da Amazônia Legal brasileira.
O péssimo desempenho do governo torna ainda mais preocupante as ameaças à democracia patrocinadas pelo presidente e seus seguidores. Essas ameaças certamente estarão presentes nas manifestações do próximo dia 7, o dia em que se comemora a independência do Brasil. Lá, muito provavelmente, estarão sendo exibidas, mais uma vez, as faixas pedindo intervenção militar.
Não é sem razão que centenas de empresários divulgaram, no dia 5, manifesto de apoio à “democracia saudável” com “realização de eleições e a aceitação dos resultados por todos os envolvidos”. As ameaças de Bolsonaro geraram reações também de dez ex-ministros da Justiça e da Defesa que condenaram “essa aventura política que visa a perenizar uma crise institucional artificialmente criada” que “deve ser cortada em seu nascedouro”.
Felizmente os tumultos provocados pelo Capitão seguem um roteiro previsível. Isso permitirá que as instituições brasileiras que sustentam a democracia possam reagir ao evidente desejo presidencial de criar um ambiente propício a um golpe de Estado. Golpe que o país não merece, não deseja e – vamos cruzar os dedos – não permitirá que ocorra.