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É jornalista e historiador

Bolsonaro e a luz no fim do túnel: o confronto como estratégia

A verdade é que, no clima de polarização política que vive o Brasil desde 2013, fazer previsões no campo da política se tornou um exercício muito perigoso

Publicado em 25/08/2021 às 02h00
Jair Bolsonaro em motociata na cidade de Porto Alegre.
Jair Bolsonaro em motociata na cidade de Porto Alegre. Crédito: Isac Nóbrega/PR

Não tenho dúvidas de que presidente Jair Bolsonaro (sem partido) é um fenômeno sem precedentes na história política do Brasil desde que se tornou um país independente, em 1822. O ex-capitão conseguiu o que nenhum outro político jamais conseguiu em quaisquer dos níveis de administração (municipal, estadual ou federal) na chefia do Poder Executivo: cometeu todo tipo de descalabro, desatinos e trapalhadas; sua gestão da pandemia de Covid-19 é desastrosa e contribuiu decisivamente para que o país ultrapassasse a marca de mais de 570 mil mortes; e a imagem do Brasil no mundo nunca foi tão ruim como agora, transformando o maior país da América Latina num verdadeiro pária internacional.

O governo Bolsonaro não tem um programa de governo e as demonstrações de inépcia, despreparo e amadorismo de sua equipe causam espanto. Ainda assim, passados mais de dois anos e meio de mandato, o ex-capitão transformado em político há mais de 30 anos, mas que até pouco tempo negava a política, consegue ainda manter um sólido apoio de um quarto da opinião pública, como continuam mostrando as seguidas pesquisas de opinião pública.

Não é pouca coisa, independentemente do que vier a acontecer em 2022, quando Bolsonaro deve disputar a reeleição. Ele triunfou onde nenhum outro político triunfou. Trata-se de um fato que não tem como ser subestimado e certamente será, no futuro, tema para milhares de trabalhos acadêmicos, que envolvem áreas como a Ciência Política, a Antropologia e a Psicologia de Massas, entre outras ciências.

Mas, falando em disputar a reeleição, essa parece não ser a vontade do ex-capitão transformado em político que nega a política. Afinal, os movimentos feitos pelo presidente da República, principalmente depois do início da pandemia de Covid-19, no ano passado, são de quem não não gostaria de disputar eleição nenhuma, a não ser que o resultado lhe seja favorável ou para ser aclamado, como se o que estivesse em jogo fosse o trono de Roma.

Não é por acaso que ele coloca em suspeita as mesmas urnas eletrônicas que o elegeram e faz ameaças de que não haverá eleição se o voto não for impresso. Da mesma forma, são frequentes os seus ataques contra as instituições e os demais Poderes da República; o ex-capitão também procura interferir abertamente nas Forças Armadas, na Polícia Federal (PF), na Procuradoria Geral da República e em outros órgãos e agências do governo para colocá-los a serviço das suas próprias ambições e da sua família, e ainda mantém a sua base permanentemente mobilizada através de uma pregação que mistura teorias da conspiração com golpismo.

Bolsonaro não teve o sucesso até o momento, apesar do apoio eloquente e fanático dos seus seguidores, que muitas vezes parecem viver numa realidade completamente distópica. Assim, pelo menos por enquanto, tudo leva a crer que o ex-capitão terá mesmo que se submeter novamente ao julgamento fundamental de uma democracia, que é feito através do voto popular.

Mas ainda que continue conspirando contra a democracia, a verdade é que os 25% de apoio que ainda mantém na opinião pública são um trunfo e tanto para Bolsonaro, ainda mais depois de tudo que aconteceu nesse período. Não há dúvida que o ambiente de polarização política do país e a mobilização permanente dos apoiadores, impulsionados por Bolsonaro e seu círculo próximo, contribuíram decisivamente para a antecipação da disputa eleitoral, evidentemente associado ao estilo errático do seu governo.

Intuitivo e impulsivo, o ex-capitão levou para o Palácio do Planalto a tática de confrontação contra inimigos, reais ou imaginários. Essa é talvez a única estratégia que Bolsonaro conhece desde quando entrou para a política, em 1988, quando se elegeu vereador na cidade do Rio Janeiro. Assim conseguiu chegar até onde chegou e nada indica que vá mudar agora. É verdade que essa é uma tática arriscada, porque exclui quem não faz parte do culto ao “mito” e nem segue o catecismo bolsonarista, cujo conteúdo está centrado na agenda moral de costumes.

A volta ao jogo do ex-presidente Lula (PT), depois que o STF anulou suas condenações na disputa, é uma ameaça, mas não conseguiu erodir a sua robusta base de apoio, muito pelo contrário. A verdade é que, no clima de polarização política que vive o Brasil desde 2013, fazer previsões no campo da política se tornou um exercício muito perigoso.

Tal situação me faz lembrar de uma história que ouvi no passado, supostamente protagonizada pelo ex-governador de Minas Gerais  Magalhães Pinto, um dos personagens do golpe civil-militar de 1º de abril de 1964. Durante o período da crise que marcou o fim do regime militar, ao ser perguntado por um repórter se via alguma luz no fim do túnel, o então senador do PDS respondeu: “Meu filho, eu não vejo nem o túnel”.   

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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