Uma eleição disputada por dois candidatos recordistas em rejeição – na qual cada um deles se preocupava mais em destruir a imagem do outro do que apresentar o seu programa de governo – não poderia resultar em outra coisa senão em uma campanha eleitoral recheada de péssimos momentos. Eram tantos, e tão mais numerosos que os bons momentos, que não é possível se falar na campanha sem relembrá-los.
A começar pelo candidato vencedor, Luiz Inácio Lula da Silva, que não se cansou de repetir que foi inocentado pela Justiça pelo fato de o STF ter anulado os julgamentos que o condenaram e o levaram à prisão. Nem adiantou o ex-ministro Marco Aurélio Melo ter, didaticamente, explicado que o Supremo não inocentou o ex-presidente, mas só “aceitou a nulidade do processo-crime, o que implica o retorno à fase anterior, à fase inicial”.
Lula também protagonizou outros episódios que merecem ser incluídos entre os piores momentos quando sua propaganda eleitoral na TV assegurou que ele havia sido inocentado “até pelo papa”. A sua propaganda ainda disse que o seu adversário iria “congelar o salário mínimo” e acabar com o 13º salário, fato que o levou a ser desmentido por Bolsonaro no debate realizado pela Rede Globo na antevéspera do pleito. Ao ser confrontado pelo adversário, Lula disse que não sabia de nada porque não gastava seu tempo “vendo TV”, pois tinha coisas mais importantes para fazer. Ou seja, como em outras ocasiões, tentou jogar a responsabilidade do erro (ou do crime?) nos ombros de outras pessoas.
Bolsonaro, por sua vez, foi um protagonista quase diário dos piores momentos da eleição. Suas tentativas de desqualificar a gravidade da pandemia da Covid-19 demonstraram total falta de entendimento sobre o período mais difícil vivido pela humanidade nos últimos cem anos e que, no Brasil, matou quase 700 mil pessoas. Sua insistência em desmerecer a eficácia das vacinas teve como consequência a repetição de despautérios como o dito por seu aliado Onyx Lorenzoni, candidato ao governo do Rio Grande do Sul, que afirmou que “a melhor vacina que existe (contra a Covid) é pegar a doença”.
Aliás, seu seguidor Carlos Manato, candidato ao governo do Espírito Santo, seguiu na mesma trilha ao afirmar, no debate da Rede Gazeta, realizado antes do segundo turno, que “a pandemia foi uma farsa”, insinuando que a quantidade de mortes por Covid no Espírito Santo – aproximadamente 15 mil – teria sido inflada por pessoas assassinadas.
Acrescente-se à lista dos piores momentos o incentivo que Bolsonaro fez à população para adquirir armas, como se isso fosse capaz de assegurar segurança a alguém, quando se sabe que, ao contrário, é um estímulo à violência. O fato de seu aliado Roberto Jefferson ter resistido à prisão com tiros de fuzil e jogado granadas nos policiais federais escancarou o equívoco da política de facilitação do acesso da população às armas de fogo.
Resta mencionar um outro enorme equívoco registrado durante a campanha eleitoral, que foi a decisão do TSE de censurar a Rádio Jovem Pan. A medida foi uma clara interferência “na programação da emissora com o cerceamento da livre circulação de conteúdos jornalísticos, ideias e opiniões”, como afirmou a Abert, a Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e TV, o que configura um ato contrário à liberdade de expressão consagrada na Constituição Federal. Foi outro episódio que demonstra que nem só os candidatos foram os protagonistas dos piores momentos das eleições de 2022.
Resta torcer para que a interdição de rodovias pelos caminhoneiros, a atitude deliberada de Bolsonaro de retardar ao máximo o reconhecimento do resultado das eleições e as manifestações dos seus seguidores em frente às unidades do Exército pedindo intervenção militar, naquilo que alguns chamam de terceiro turno do pleito, não se constituam em mais uma triste e lamentável ocorrência justamente na hora em que a democracia deveria viver e festejar o seu melhor e mais belo momento, que é o da realização das eleições livres e soberanas que merecem ser respeitadas por todos.