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Brasil

Nas eleições 2022, bendito seja o segundo turno

Lula e Bolsonaro já devem ter entendido que os eleitores consideram que nenhum dos dois é o dono da verdade absoluta, e que devem descer do salto alto se quiserem conquistar votos fora da sua bolha de seguidores radicais

Públicado em 

07 out 2022 às 00:10
José Carlos Corrêa

Colunista

José Carlos Corrêa

Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro
Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro Crédito: Ricardo Stuckert/PT e Folhapress
Se o segundo turno de uma eleição tem algo de positivo, esse é o de mostrar aos candidatos finalistas que eles não podem se arvorar em colocar em prática tudo o que vem às suas cabeças, e sim que, democraticamente, devem dialogar, ouvir e considerar outras ideias, fazer concessões, abrir mão de posições e buscar construir consensos. Além disso, devem procurar fazer tudo isso de forma republicana, sem negociações e acordos espúrios, já que o maior pacto a ser feito é com a sociedade.
Isso pode parecer uma grande utopia no Brasil – onde os eleitores escolheram levar a decisão das eleições para o segundo turno – já que, todos sabemos, os acordos políticos aqui quase sempre se fazem baseados em interesses pessoais ilegítimos, barganhas por verbas públicas e vantagens particulares que não levam em conta as necessidades da população.
Mesmo assim, é bom sonhar que o segundo turno das eleições presidenciais seja uma oportunidade para os candidatos finalistas descerem do pedestal em que se encontravam para entender que é preciso abrir espaços para posições fora de suas bolhas mais radicais, se afastando das extremidades ideológicas de direita e de esquerda que alimentaram a polarização do primeiro turno.
Não podemos esquecer que as campanhas para conquistar o voto dos eleitores ainda indecisos provavelmente vão se concentrar nos ataques frontais aos pontos mais vulneráveis dos adversários. Infelizmente tem sido assim nas eleições brasileiras em que o que menos se discute são propostas de governo e o que mais se ouve são agressões explícitas como se viu no mais recente debate exibido pela Rede Globo.
Mesmo assim, fora do palanque, os dois candidatos finalistas sabem, melhor do que ninguém, que não receberam e nem receberão um cheque em branco do povo brasileiro. Eles já devem ter entendido que os eleitores consideram que nenhum dos dois é o dono da verdade absoluta, e que devem descer do salto alto se quiserem conquistar votos fora da sua bolha de seguidores radicais.
E é bom que seja assim porque o Brasil não precisa de um salvador da pátria. O que o país precisa é construir a união dos contrários, buscar uma forma de amenizar os conflitos, pacificar as disputas pelo poder e construir um ambiente que supere a radicalização ideológica que intoxicou a sociedade, separou amigos e dividiu famílias.
É possível sonhar que isso seja possível. Afinal, são 32 milhões os brasileiros que não foram as urnas em 2 de outubro, a maioria deles por ter simplesmente decidido não votar. Sem falar que outros 15 milhões votaram em outros candidatos ou preferiram anular os seus votos ou votar em branco, que são os “nem-nem”, ou seja, os que se recusaram a votar em qualquer um dos dois finalistas.
São esses os milhões de brasileiros que estão dando, a quem quiser ouvir e entender, um recado eloquente de que desejam um Brasil diferente daquele que os radicais de direita e de esquerda defendem nas eleições de 2022.

José Carlos Corrêa

É jornalista. Atualidades de economia e política, bem como pautas comportamentais e sociais, ganham análises neste espaço.

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