A sabatina promovida pelo Jornal Nacional com os principais candidatos à presidência da República revelou que os dois concorrentes apontados como favoritos pelas pesquisas de intenção de voto – Lula e Bolsonaro – cometeram derrapagens que deveriam deixar corados os seus mais fiéis seguidores. O verbo está no condicional – “deveriam” – porque, ninguém desconhece, há uma grande parcela de seguidores de cada um deles que não pode ser chamada de fiel, mas sim de fanática, porque se comporta com um radicalismo maior do que o das mais apaixonadas torcidas dos times de futebol.
O maior escorregão de Lula foi, ao tentar se esquivar das acusações de corrupção, ter alegado que a Lava Jato deu “um prejuízo ao país de R$ 270 bilhões”, criou “4 milhões de desempregados” e que, por isso, o governo “deixou de arrecadar R$ 58 bilhões” porque as condenações “quebraram a indústria de engenharia”.
Ora, o que a Lava Jato fez foi comprovar que as empreiteiras condenadas roubaram o país, montaram cartéis que praticaram sobrepreços com a cumplicidade de diretores de estatais nomeados pelos governos petistas. A Lava Jato desnudou crimes cometidos contra o Brasil, entre os quais corrupção ativa e passiva, gestão fraudulenta, lavagem de dinheiro, formação de organização criminosa e pagamento e recebimento de vantagem indevida (propina). Nada justifica a defesa de empreiteiras corruptas cujos diretores, réus confessos, chegaram a devolver parte do roubo.
Lula, na sabatina, admitiu que houve casos de corrupção nos governos do PT – “Não se pode dizer que não houve corrupção se as pessoas confessaram” –, casos, aliás, que só foram desmascarados por causa da atuação da Lava Jato. Mas não chegou a dizer que muitos dos corruptos desmascarados pela Lava Jato foram nomeados pelos governos do seu partido.
Bolsonaro também cometeu seus escorregões, que não foram poucos. Chamou de fake news a afirmação do entrevistador de ter ele xingado um ministro do Supremo e, ao ser desmentido – afinal todo o Brasil sabe que ele chamou o ministro Alexandre de Moraes de “canalha” – se justificou dizendo que só xingou “um”. Fingiu esquecer que também xingou – com um palavrão ainda pior – o ministro Luís Roberto Barroso.
Mas a sua derrapagem mais grave foi, ao tentar se esquivar da pergunta sobre a negligência do governo com relação à falta de oxigênio em Manaus, por ocasião da pandemia da Covid-19, garantir que “em menos de 48 horas os cilindros (de oxigênio) começaram a chegar”. A verdade é que, como comprovou a CPI da Covid-19, o oxigênio só começou a chegar em Manaus uma semana depois que a White Martins comunicou a dificuldade de produção do insumo. O governo, na época, insistia que não era da sua competência levar oxigênio ao Amazonas.
Aliás, a equivocada condução do governo federal durante a pandemia continua provocando as maiores derrapagens de Bolsonaro. Ele ainda desmerece as vacinas – “Até hoje são desconhecidos os efeitos colaterais da vacina” –, condena a política de distanciamento social adotada pelos governadores e prefeitos e não reconhece o equívoco de ter propagandeado o uso de medicamentos comprovadamente ineficazes contra a Covid-19, como a cloroquina e a ivermectina.
Diante de tantas derrapagens, só nos resta a esperança de que os dois principais presidenciáveis ainda venham, um dia quem sabe?, a rever os seus conceitos sobre o que é, de fato, melhor para o nosso querido Brasil.