Como nas eleições anteriores, o Jornal Nacional realiza nesta semana sua série de entrevistas com os candidatos à presidência da República. Os três primeiros sabatinados foram, respectivamente, Jair Bolsonaro, Ciro Gomes e Luiz Inácio Lula da Silva. Tais entrevistas são momentos importantes para auxiliar os eleitores a definirem seu voto, reforçando a importância da imprensa livre e profissional para o aprimoramento da democracia e o engrandecimento dos debates políticos.
Primeiro a ser entrevistado neste ano, Jair Bolsonaro tentou abandonar, ainda que por alguns instantes, a postura de valentão contra quem lhe questiona e de perseguidor de jornalistas. Porém, mesmo acuado, Bolsonaro investiu naquilo que mais tem feito nos últimos anos: criar uma realidade paralela sempre que a realidade dos fatos não lhe favorece.
Entre as mentiras mais escancaradas, vale citar a fala de que não haveria corrupção no atual governo, mesmo diante das inúmeras denúncias como as de corrupção no Ministério da Educação e de interferências em órgãos de investigação. Após anos atacando diretamente ministros do Supremo Tribunal Federal, Bolsonaro tentou inverter a situação dizendo que o jornalista William Bonner não estaria dizendo a verdade. A propósito, quando Bonner questionou Bolsonaro sobre a mudança brusca de postura com a aliança ao Centrão, o presidente acusou o jornalista de “forçá-lo a ser um ditador”, quando, na verdade, sempre foi Bolsonaro que demonstrou simpatia ao totalitarismo e menosprezo à democracia.
Após ter tentado fugir de debates e passar os últimos anos se recusando a atender adequadamente a imprensa, Bolsonaro não aproveitou a oportunidade para se apresentar como um candidato preparado para conduzir o país. Além das fake news que se tornaram sua marca conhecida, o presidente não conseguiu apresentar propostas efetivas mesmo com uma “cola” bem pronunciada em sua mão.
O segundo entrevistado, Ciro Gomes, conseguiu controlar um pouco mais seu ímpeto e apresentou um discurso com muitas propostas interessantes, mas pouco factíveis, utópicas no atual momento, como a tributação sobre grandes fortunas. Assim como Bolsonaro, informações falsas ou distorcidas estiveram presentes, ao dizer, por exemplo, que o Brasil tem apenas 11,6 mil policiais, quando o número real chega perto de 480 mil. Não foi coerente com a verdade também quando, tentando defender seu legado enquanto prefeito, disse que Fortaleza não teria mais áreas de risco.
Ciro, dirigindo-se aos eleitores indecisos, disse que eles seriam mais da metade da população, o que, segundo o último levantamento do Datafolha, divulgado no dia 18 de agosto, mostra que somente 2% dos entrevistados estão indecisos na pesquisa estimulada e outros 22% na pesquisa espontânea. Esse talvez seja um dos maiores desafios de Simone Tebet, a entrevistada desta sexta-feira (26), e de Ciro Gomes, que se apresentam como a terceira via, a despeito de não conseguirem ultrapassar seu “voo de galinha”, já que Lula e Bolsonaro representam quase 80% dos eleitores entrevistados, havendo, inclusive, a chance de que Lula possa ser eleito ainda no primeiro turno (caso sua campanha não cometa muitos deslizes).
Lula, a propósito, o entrevistado de ontem, a pretexto de se defender das acusações da Lava Jato, acabou por atacar todo o Ministério Público. Conquanto tenha reconhecido a importância da instituição, não assumiu o compromisso de respeitar a lista tríplice para o cargo de Procurador-Geral da República, preferindo manter um suspense dúbio. Lado outro, reconheceu algumas falhas na gestão Dilma Rousseff, mas talvez o ponto mais importante tenha sido a valorização das credenciais de seu vice, o ex-tucano e outrora adversário Geraldo Alckmin, algo que não foi replicado por Bolsonaro e Ciro sobre seus respectivos candidatos a vice.
Já a candidata Simone Tebet teve que se desdobrar para justificar a falta de apoio em seu próprio partido, o PMDB. Assim como Ciro, não poupou críticas a Bolsonaro e Lula no afã de captar os votos do eleitorado de centro. No que pese o comedimento de suas falas e da tentativa de se mostrar como a alternativa fora da curva, não conseguiu apresentar um discurso motivador, faltando detalhamento de políticas de governo e de visões sobre temas sensíveis, o que dificulta a avaliação da exequibilidade de seu programa.
Atualização
27/08/2022 - 12:27
O texto foi atualizado com a avaliação, feita pelo colunista, da entrevista da candidata Simone Tebet na noite desta sexta-feira (26)