JULIA CHAIB E LUCAS MARCHESINI
BRASÍLIA, DF - A campanha do presidente Jair Bolsonaro (PL) criou e impulsionou no Google um site que reúne notícias e conteúdos negativos para o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), numa prática que, segundo especialistas, é vedada pela legislação eleitoral.
Chamada Lulaflix, a página foi criada em 30 de agosto e o domínio está registrado no CNPJ da campanha de reeleição de Bolsonaro. No entanto, a página não consta no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) como pertencente ao time do presidente.
De acordo com especialistas consultados pela Folha, essa conduta fere as regras eleitorais em ao menos três frentes.
O artigo 57 da legislação eleitoral aponta ser crime a "contratação direta ou indireta de grupo de pessoas com a finalidade específica de emitir mensagens ou comentários na internet para ofender a honra ou denegrir a imagem de candidato".
Além disso, também configura conduta irregular realizar propaganda na internet "atribuindo indevidamente sua autoria a terceiro, inclusive a candidato, partido ou coligação".
Há ainda outro trecho da legislação eleitoral segundo o qual é proibida a veiculação de conteúdo de cunho eleitoral "com a intenção de falsear identidade".
Por fim, a lei só permite a promoção de conteúdos positivos sobre as campanhas dos próprios candidatos, vedando, assim, o impulsionamento de informações negativas contra adversários.
PÁGINA LULAFLIX REÚNE NOTÍCIAS ANTIGAS
A página reúne uma série de notícias, publicadas em outros sites, inclusive em veículos de imprensa, com conteúdos a respeito da campanha de Lula. Alguns textos tratam de processos que tiveram o petista como alvo na Justiça, relembram o escândalo do mensalão e resgatam reportagens antigas.
O site bolsonarista ainda compartilha nota publicada no site "Diário do Poder" que busca vincular o ex-presidente ao PCC por meio de uma delação premiada de Marcos Valério, que foi operador do mensalão. Antes, o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) já havia determinado, por seis votos a um, que Bolsonaro removesse três postagens que faziam a associação do candidato à facção criminosa.
Um dos posts que tiveram de ser retirados por Bolsonaro era um áudio da TV Record compartilhado pelo presidente nas redes. A divergência na corte foi aberta pela relatora Maria Claudia Bucchianeri, que julgou que o teor do áudio não havia sido desmentido.
A campanha de Bolsonaro foi procurada, mas disse que não vai se pronunciar sobre o assunto.
"Se tiver patrocínio para chegar nesse site, é completamente vedado. Não se pode impulsionar de maneira alguma propaganda negativa", avaliou Recchia.
A infração pode levar a multa. Para ela, cabe também a discussão se houve o "uso indevido dos meios de comunicação social, já que que muito embora se trate de site e não de rádio e TV, é uma forma de comunicação digital com aderência ao eleitorado".
Se for esse o caso, a punição pode levar à cassação do registro e do diploma, se eleito; além de uma inelegibilidade por oito anos.
"Você só pode fazer a crítica dura baseada em notícias negativas na propaganda na TV e rádio. Propaganda paga na internet é vedada, só pode por meio de impulsionamento, que é uma exceção. Porém vedado o impulsionamento de propaganda negativa de adversários", avalia Neves.
Na noite de terça (13), a campanha do PT recorreu ao TSE para pedir o fim do impulsionamento do Lulaflix, assim como a retirada do ar do site,
A defesa de Lula alega que o adversário infringiu a lei ao impulsionar propaganda negativa contra o petista. Também aponta que a página em questão não foi informada ao TSE. Afirma ainda que o impulsionamento não é identificado como propaganda eleitoral, o que também fere a legislação, segundo os advogados do petista.
Além da remoção do conteúdo, a campanha de Lula solicitou a aplicação de multa.