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Revolta da Vacina

Políticas públicas devem ter mais criatividade e menos autoritarismo

Apesar da falta de saneamento básico, os morros ofereciam condições naturais menos favoráveis à propagação das doenças, de maneira que as endemias foram vencidas não apenas pela medicina

Publicado em 17 de Maio de 2020 às 05:00

Públicado em 

17 mai 2020 às 05:00
Henrique Herkenhoff

Colunista

Henrique Herkenhoff

Sanitarista Oswaldo Cruz
Sanitarista Oswaldo Cruz Crédito: Divulgação
Pouco mais de um século atrás, com 800 mil habitantes, o Rio de Janeiro sofria com a febre amarela, a febre tifoide, a peste bubônica, o impaludismo, a varíola e a tuberculose. O grande médico sanitarista Oswaldo Cruz encarregou-se do problema debelando focos de mosquito, demolindo residências insalubres, fechando estabelecimentos comerciais sem condições de higiene etc.
Em agosto de 1904 foi aprovada uma lei tornando obrigatória a vacina contra a varíola, que, além de ser exigida para muitas finalidades, passou a ser aplicada à força bruta, com auxílio da polícia. As medidas, sempre impostas manu militari, atingiam quase exclusivamente os mais pobres. As vastas áreas desocupadas foram urbanizadas para a elite.
Entre os bacharéis em Direito que governavam o país e a população semialfabetizada, sempre houve muitas dúvidas quanto à eficiência e à segurança da vacina. Não era o único elemento de insatisfação. Uma bem-sucedida, mas impopular, política de austeridade financeira havia estabilizado a economia e permitira o início da recuperação das atividades produtivas por meio de um programa de obras de saneamento e de infraestrutura.
Na segunda semana de novembro de 1904, eclodiu um levante popular reprimido ferozmente. Tentou-se inclusive um golpe de Estado. A Revolta da Vacina terminou com 945 presos, 30 mortos, 110 feridos e 461 desterrados para o Estado do Acre. E a obrigatoriedade revogada, claro. Para encurtar a história, o Rio de Janeiro se tornou a Cidade Maravilhosa, mas também se formaram as suas favelas, para onde foram empurradas as camadas sociais inferiores.
Apesar da falta de saneamento básico, os morros ofereciam condições naturais menos favoráveis à propagação das doenças, de maneira que as endemias foram vencidas não apenas pela medicina. Oswaldo Cruz “virou fundação”. Belezas naturais e urbanísticas, violência e injustiça social.
Tudo o que há de bom e de ruim na antiga capital brasileira pode ser remontado a esse episódio.
A melhor das políticas públicas poderia ter sido a pior delas se não pudesse ser implementada ou sustentada pelo tempo necessário. Custos e benefícios deveriam ter sido comparados e a relação entre eles poderia ser melhorada com mais criatividade e menos autoritarismo.
A situação dos menos afortunados poderia ter sido suavizada, e talvez hoje não estivéssemos enfrentando as facções criminosas. Ainda bem que nada disso aconteceria hoje em dia.

Henrique Herkenhoff

É professor do mestrado em Segurança Pública da UVV. Faz análises sobre a violência urbana e a criminalidade, explicando as causas e apontando caminhos para uma sociedade mais pacífica. Escreve aos domingos

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