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Coronavírus

Pandemia deveria unir e motivar servidores da segurança pública

Em condições normais de temperatura e pressão, a atual crise da Covid-19 deveria servir como fator de união e motivação entre os servidores da segurança pública, tanto quanto os da saúde

Publicado em 19 de Abril de 2020 às 05:00

Públicado em 

19 abr 2020 às 05:00
Henrique Herkenhoff

Colunista

Henrique Herkenhoff Henrique Herkenhoff
Policial nas ruas e a sensação de segurança pública
Policial nas ruas e a sensação de segurança pública Crédito: Divulgação
Muitos meses atrás, publiquei neste espaço meu “diagnóstico” de que, depois do movimento paredista, a PMES esta anaclítica. O artigo não foi nada bem recebido. Lastimavelmente, essa doença é “contagiosa”.
Em condições normais de temperatura e pressão, a atual crise da Covid-19 deveria servir como fator de união e motivação entre os servidores da segurança pública, tanto quanto os da saúde. Nunca tantos dependeram de tão poucos, e o reconhecimento em aplausos e correntes de redes sociais falaria muito mais alto do que as demandas salariais improváveis.
Em tempos nos quais tantos milhões perdem os empregos que tinham e até os que não tinham, enquanto outros agonizam nos leitos hospitalares, a missão humanitária e a sensação de utilidade social e de cumprimento do dever é paga suficiente para quem ao menos não tem o fantasma da fome a assombrá-lo.
Contudo, para quem cronificou um viver deprimido, tudo é motivo para desalento: notícias boas e ruins, missões gloriosas ou ingratas, confinamento ou liberdade, tudo é recebido com uma indiferença trágica. O grande desafio de quem está à frente dos serviços públicos neste momento é reverter este processo, tratar de feridas mal curadas e cicatrizes de um momento tão grave e tão recente, além de evitar que ele contamine quem ainda está cheio de determinação e orgulho pela sua farda, seu avental, sua batina.
Esse desafio é ainda mais dificultado pela confusão de informações, falsas, verdadeiras ou incertas, em uma época na qual as dúvidas é que predominam. É preciso saber lidar com as incertezas, ver ordem no caos, estabelecer uma liderança baseada não em convicções impossíveis de provar, mas na disposição de enfrentar o desconhecido, navegar em mares bravios apenas porque nossos filhos e pais dependem de nós, porque a nós foi confiada uma tarefa sobre-humana que não recusaremos, não temeremos o fogo da metralha, mas tampouco o inimigo microscópico.
Tudo isso acima, contudo, são apenas palavras. Líderes devem dormir entre seus seguidores, comer de sua comida, calçar suas botas, sofrer suas feridas e ainda permanecer alerta, enquanto os liderados descanso o sono dos justos. Palavras convencem, o exemplo arrasta. Velhos bordões assumem novos significados em tempos do cólera, e até este erro de concordância volta a ser perdoável, embora eu não seja Gabriel García Márquez.

Henrique Herkenhoff

Henrique Herkenhoff Henrique Herkenhoff

É professor do mestrado em Segurança Pública da UVV. Faz análises sobre a violência urbana e a criminalidade, explicando as causas e apontando caminhos para uma sociedade mais pacífica. Escreve aos domingos

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