As estatísticas criminais, mesmo em países que lhes dão mais importância, são muito pouco confiáveis e antes contribuem para a desinformação e para a distorção da realidade. No Brasil, mal é possível utilizar, com muitas reservas, as de homicídio, uma vez que poucos as produzem com a seriedade que se vê no ES. De qualquer modo, não é por meio delas que o cidadão mede o risco a que está exposto, mas pelos crimes com os quais tem contato.
Quando não havia meios de comunicação, cada um de nós tomava conhecimento somente dos delitos sofridos por pessoas muito próximas, porém, atualmente, somos alcançados pelas imagens das barbaridades cometidas em cada canto da cidade em que moramos e de alguns fatos mais impactantes ocorridos até em outros países.
Nosso cérebro não categoriza e separa essas informações de uma maneira estritamente racional como os economistas: por empatia e outras questões afetivas ou psicológicas, percebemos cada fato desse tipo como algo que poderia ter acontecido conosco. Por isso, a impressão de que a violência está aumentando ou diminuindo em nosso entorno é muito mais influenciada pela intensidade da cobertura jornalística, pelo espaço ocupado nos meios de comunicação e pelo compartilhamento de postagens que pela variação no número ocorrências.
Com o coronavírus tomando cada minuto do noticiário, a violência urbana vai saindo também da pauta das discussões pessoais, dos grupos e das redes sociais. Contudo, os assaltantes não se regeneraram milagrosamente nem foram todos presos, apenas há poucas pessoas em circulação.
Enquanto isso, os assassinatos até andaram se tornando mais frequentes. Se essa situação durar tempo suficiente, a sensação de segurança da população pode se manter em alta mesmo depois de acabar a quarentena, assim como é possível que a pandemia deixe um rastro de temor e cuidados com a saúde.
No médio e no longo prazos, o que importa são os números reais, a matemática fria dos gráficos, mas a tentação do curto prazo é muito grande para governantes e governados, candidatos e eleitores. Ninguém é morto por uma manchete ou por meio de postagens no WhatsApp, mas é possível introduzir pequenos traumas irracionais que, somados, conduzem a um medo patológico, a uma aversão irracional ao risco e a outras reações facilmente manipuláveis; há os que se aproveitam disso, porém, muito mais numerosos são os que gostam de ser manobrados, e nenhuma boa política de segurança pública surgirá desse processo.