Recuperar senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Cadastrar nova senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Guerra ao tráfico

De todas as estratégias, a prisão de microtraficantes é a menos efetiva

Um policial pode arriscar sua vida e prender quem está traficando, mas não consegue impedir sua substituição e nem é esse o seu papel. Só quem tem uma chance concreta são os professores

Publicado em 08 de Março de 2020 às 05:00

Públicado em 

08 mar 2020 às 05:00
Henrique Herkenhoff

Colunista

Henrique Herkenhoff Henrique Herkenhoff
Tráfico de drogas Crédito: Divulgação
No século XIX, a China tentou proibir o comércio do ópio, mas foi forçada pela Inglaterra, principal fornecedora, a voltar atrás. Contudo, em 1912, foi assinada a Convenção Internacional do Ópio, que pode ser considerada o marco inicial do proibicionismo internacional. Apesar disso, nenhum país conseguiu qualquer resultado positivo na repressão ao tráfico de drogas.
Aqueles que passaram a focar na saúde pública obtiveram principalmente a redução de danos aos usuários e alguma diminuição no consumo, que, todavia, estabilizou-se em um novo patamar, embora mais baixo. Ou seja, mudar a estratégia trouxe algum benefício, mas não a solução do problema.
Em todo caso, há pelo menos uma unanimidade: a repressão não foi suficiente, mesmo com os seguidos endurecimentos na legislação criminal. E, de todas as estratégias de prevenção criminal, a prisão de microtraficantes, os que fazem o pequeno varejo, é certamente a menos efetiva: além causar muitos confrontos urbanos e de superlotar os presídios, aqueles que são presos ou mortos acabam imediatamente substituídos, e aqui está a chave da questão.
A evasão escolar e o envolvimento com o tráfico ocorrem mais ou menos ao mesmo tempo e, principalmente, no ciclo de ensino fundamental II, mas o desinteresse pelos estudos surge muito antes.
Um estudo acompanhou cerca de 30 estudantes de uma escola municipal do fundamental I que se envolveram em muitos incidentes disciplinares. Resultado: alguns anos depois, um deles havia sido preso por homicídio, outro havia sido assassinado e metade já havia sido presa por tráfico (o que não significa que a outra parte não estivesse envolvida).
Apesar de a taxa de fertilidade ter diminuído e haver cada vez menos crianças e adolescentes, suas famílias frequentemente estão desestruturadas, quando não encarceradas, e a escola é a única chance que muitos deles terão. É, portanto, um equívoco reduzir hoje os investimentos em educação, seja porque estamos longe de oferecer uma de qualidade, seja porque ela é o único instrumento eficaz de prevenção.
Um policial pode arriscar sua vida e prender quem está traficando, mas não consegue impedir sua substituição e nem é esse o seu papel. Só quem tem uma chance concreta são os professores. Manter os alunos na escola é a única solução possível (e teria outras vantagens, obviamente). Parece lugar-comum, mas vem sendo claramente confirmado por estudos científicos. O resto, infelizmente, é enxugar gelo.

Henrique Herkenhoff

Henrique Herkenhoff Henrique Herkenhoff

É professor do mestrado em Segurança Pública da UVV. Faz análises sobre a violência urbana e a criminalidade, explicando as causas e apontando caminhos para uma sociedade mais pacífica. Escreve aos domingos

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Imagem de destaque
Radar móvel será usado em ação educativa com bikes elétricas em Vitória
Imagem de destaque
Escape de urina ao correr ou pular não é normal e também afeta mulheres jovens. Entenda
Trio é flagrado andando em bike elétrica por ruas de Aracruz
Três adolescentes são flagrados na mesma bike elétrica em Aracruz

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados