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É professor do mestrado em Segurança Pública da UVV

Combate eficaz à violência depende de estatísticas mais precisas

Método comparativo é fácil de compreender e calcular, mas pode ocultar graves desvios e vieses, especialmente quando se trata de analisar tendências, fazer previsões e avaliar o resultado de políticas públicas

Publicado em 12/10/2019 às 06h02
Polícia Civil atuando em Vitória. Crédito: Reprodução/ TV Gazeta
Polícia Civil atuando em Vitória. Crédito: Reprodução/ TV Gazeta

Para evitar distorções, estatísticas comparativas geralmente dividem-se as quantidades absolutas pelo número de habitantes de cada local considerado. Por isso mesmo, a violência ou o encarceramento costumam ser divulgados na forma de homicídios/100 mil habitantes, presos/100.000h etc. O mesmo é feito com muitos outros indicadores sociais.

Esse método é relativamente fácil de compreender e calcular, e por isso é predominante nas estatísticas públicas. Ocorre que ele pode ocultar graves desvios e vieses, especialmente quando se trata de analisar tendências, fazer previsões e avaliar o resultado de políticas públicas, porque as evidências empíricas e os estudos teóricos revelam que a evolução dos fenômenos tende a seguir leis alométricas (desproporções previsíveis), não uma lógica linear. Se você fosse um matemático, diria que “o parâmetro alométrico é diferente de 1”. O artigo científico original dos pesquisadores Luiz Alves, Renio Mendes, Ervin Lenzi e Haroldo Ribeiro está disponível na internet (clique aqui para acessar).

Por exemplo, todos nós já notamos que os caranguejos podem ter puãs bem desproporcionais. Isso ocorre porque, no tempo de crescimento, enquanto a sua carapaça dobra de tamanho, esse membro triplica, por exemplo. Essa diferença tende a se manter, de maneira que, quanto maior o animal, maior a “desproporção”, embora ela fosse perfeitamente previsível: “o parâmetro alométrico entre a carapaça e aquela puã é de 1,5”. Isso é meio complicado, mas pode ser muito importante.

Da mesma forma, as evidências mostram que grandezas tais como renda familiar, analfabetismo, número de homicídios ou de suicídios têm comportamentos muito diferentes em cidades com populações muito maiores ou menores que outras. De fato, por conta da interação entre as pessoas, comunidades são como organismos vivos, com suas peculiaridades, e o tamanho da população é um item particularmente importante. Por isso, comparações lineares entre Estados com populações muito diferentes serão distorcidas, dando a impressão de que algumas áreas estão indo melhor ou pior do que realmente vão.

Utilizar a relação linear gera distorções que norteiam erroneamente a tomada de decisão na segurança pública. O que é melhor? Utilizar dados pouco confiáveis que todo mundo pode entender, ou outros precisos que, apesar de um pouco mais complexos, podem aprimorar sensivelmente a alocação de recursos e as políticas públicas?”

Artigo escrito em coautoria com Bruno Requião da Cunha (agente da Polícia Federal e pós-doutor em Matemática Aplicada pela University of Limerick, na Irlanda, e doutor em Física Teórica pela UFRGS)

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