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Arlindo Villaschi

Que esta seja a Copa de Claudia Sheinbaum e Vinicius Jr

Que esta Copa do Mundo transcenda as quatro linhas do campo e reafirme o esporte como instrumento de encontro entre os povos

Publicado em 11 de Junho de 2026 às 03:30

Públicado em 

11 jun 2026 às 03:30
Arlindo Villaschi

Colunista

Arlindo Villaschi

Mais do que um torneio esportivo, a Copa do Mundo funciona como espelho das disputas políticas, econômicas e culturais do seu tempo. Em torno dela se explicitam objetivos de sociedade, formas de exercício do poder e maneiras distintas de compreender o sentido da convivência humana.


Um dos países a hospedar a Copa este ano é presidido por pessoa que simboliza uma forma bem singular de exercício do poder.  A carreira política de Trump é marcada por um nacionalismo agressivo e pela forma de conduzir questões de governo como instrumento para obter ganhos pessoais, para familiares e asseclas. 


Nesse sentido,  opera a política internacional da maior potência do Ocidente como uma permanente negociação de vantagens. Seu comportamento sintetiza uma cultura política moldada pela competição extrema, pela transformação de tudo em espetáculo e pela ideia de que vencer importa mais do que construir pactos coletivos duradouros.

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No universo específico do futebol, essa lógica individualista e espetacularizada encontra expressão maior na figura de Neymar.  Dono de reconhecido talento esportivo, coloca-o majoritariamente a serviço de mobilização midiática.  


Por isso é associado à cultura de celebridade marcada pelo excesso de personalismo, pela ostentação e pelo distanciamento em relação a questões tanto envolvendo colegas de trabalho quanto aquelas de cunho social vividos pela maioria da população brasileira.

Sua trajetória pública reflete valores de um tempo em que o sucesso individual é apresentado como medida absoluta de vitória maior enquanto ser humano. Em lugar do compromisso mais amplo com questões coletivas, prevalece a construção permanente da própria imagem utilizando todos os instrumentos necessários para tal.  


Mais do que o êxito material em si, o que é passível de crítica é a dificuldade que ele tem de reconhecer a responsabilidade social proporcional à dimensão  que  sua personalidade possui.

Trump e Neymar naturalizam a ideia de privilégio como mérito exclusivamente individual, desconsiderando as profundas desigualdades estruturais que caracterizam seus respectivos países. Ambos simbolizam, em campos distintos, uma cultura fortemente orientada pelo narcisismo público, pela centralidade do espetáculo e pela permanente busca de reconhecimento pessoal que se transformem em ganhos financeiros imediatos.


Em flagrante contraste com essa forma de exercício de poder voltado para ganhos pessoais, a presidenta do México Claudia Sheinbaum e o jogador brasileiro Vinicius Jr têm utilizado suas respectivas projeções políticas e sociais para sinalizar horizontes distintos. 


A presidenta mexicana representa, em muitos aspectos, a tentativa de reconstruir uma política voltada para inclusão social, soberania nacional e valorização dos setores historicamente marginalizados da sociedade mexicana. 


Sua trajetória acadêmica e política conecta desenvolvimento econômico com justiça social e sustentabilidade ambiental, recusando a ideia de que crescimento só pode existir à custa da exclusão.


Na mesma linha de agir junto ao público, Vinicius Jr tornou-se símbolo de outra dimensão transformadora do futebol contemporâneo. Mais do que um atleta talentoso, ele cada vez mais assume posição firme contra o racismo estrutural presente dentro e fora dos estádios. 

Vinicius Jr decidiu o jogo para o Brasil
Vinicius Jr em ação Conmebol/Divulgação

Em uma época em que muitos atletas são pressionados a limitar-se ao entretenimento e à publicidade, ele utiliza sua visibilidade para denunciar violências históricas e afirmar a dignidade da população negra.


Sua postura rompe com a tradição conservadora que prefere atletas ‘neutros’ politicamente. Ao denunciar agressões racistas na Europa, Vinicius Jr recoloca o futebol em contato com a realidade concreta das desigualdades globais. Seu gesto possui enorme significado simbólico: mostra que o esporte pode ser também espaço de disputa ética e de afirmação dos direitos humanos.


Nesse sentido, a Copa do Mundo revela-se arena de confronto entre duas visões de mundo.  Uma, marcado pelo egoísmo do competir centrado no vencer para auferir ganhos pessoais, pelo espetáculo vazio e pela busca incessante de vantagem individual. 


A outra, comprometida com a  solidariedade, a pluralidade e a diversidade cultural e com o reconhecimento da dignidade humana como fundamento da vida coletiva.


Como nenhuma paixão coletiva é neutra, mesmo quando alguns buscam apresenta-lo como simples entretenimento, o futebol expressa poder, identidade, desigualdade e esperança.


Que esta Copa do Mundo transcenda as quatro linhas do campo e reafirme o esporte como instrumento de encontro entre os povos. Que nela vença a cultura da empatia sobre a intolerância; do diálogo sobre a discriminação; e da cooperação sobre o egoísmo. 


Que cada espaço de torcida mundo a fora deixe de reproduzir  preconceitos e se torne sementeira de resistência às injustiças históricas, de defesa dos direitos humanos e de celebração da diversidade que enriquece a humanidade.

Arlindo Villaschi

É professor Ufes. Um olhar humanizado sobre a economia e sua relação com os avanços sociais são a linha principal deste espaço.

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