O tiroteio entre policiais e suspeitos, durante uma abordagem na avenida Leitão da Silva gerou uma polêmica indevida nos últimos dias, algumas análises óbvias, mas fora de foco, e outras claramente descoladas do incidente.
O ponto em discussão era se aquela abordagem deveria ter sido feita, no meio de um trânsito pesado, em região densamente povoada, numa das maiores artérias viárias de Vitória. Um desses “especialistas em segurança no ar condicionado”, o coronel da PM/SP e ex-Secretário Nacional de Segurança, disse que não foi uma boa ideia.
Aí, como um dos suspeitos veio a óbito, um monte de gente que acha que bandido bom é bandido morto apareceu para defender a operação, como se a polêmica estivesse em torno de direitos humanos. Não, o que se questiona é que o episódio criou estresse e um inaceitável perigo para a população civil e, diga-se de passagem, também para os agentes da lei, sendo que estes, além disso, foram desnecessariamente expostos a riscos jurídicos.
Como disse acima, surgiu uma falsa polêmica. Quem não entende nada de operações policiais acha que a abordagem do veículo suspeito foi um erro; quem entende, concorda com mais fortes razões. Houve apenas um inocente ferido, parece que sem maior gravidade, mas poderia ter sido uma enorme tragédia.
Meia dúzia de malucos barulhentos discordando não significa que a opinião pública esteja dividida. Contudo, realmente os profissionais da segurança pública estavam tentando dar o melhor de si e, no calor do momento, sob muita adrenalina, fizeram uma escolha precipitada. Ora, condenar o episódio não implica crucificar os envolvidos. O mais importante é aprender com os erros, mas isso só é possível quando eles são reconhecidos e estudados. E a “punição” deve ser mais capacitação, equipamento, estrutura de trabalho etc.
Esse é o momento em que outros especialistas em segurança pública, também no ar condicionado, mas em posição de tomar decisões estratégicas para as corporações, podem fazer uma análise fria dos acontecimentos e questionar se um aumento de 1.500% no número de confrontos policiais é um destino ou uma escolha; e se é uma boa escolha.
Chega a ser pueril colocar a “culpa” nos criminosos, dos quais, obviamente, não podemos esperar nada de bom. Os bandidos sempre vão tentar escapar da lei e a maioria estará disposta a atirar, quando muito podendo ser impedidos pelo elemento surpresa, pelo bom uso do princípio da oportunidade e/ou pelo tamanho do aparato policial no seu encalço, que pode ter um efeito dissuasório. As polícias não escolhem, sabe, caro leitor? As polícias têm que lidar com os bandidos que aparecem, e estes se comportam como... bandidos.
A questão mais importante não é o erro ou acerto individual, que sempre vem combinado com uma dose de sorte ou azar, já que há muito de imponderável em qualquer operação policial. O que realmente vale lembrar é que, muito antes de o policial abordar alguém na rua, houve uma série de decisões nos gabinetes refrigerados, que determinam não apenas um maior ou menor número de confrontos, mas também se os policiais e os demais cidadãos, quando inevitável o choque com delinquentes, estarão mais ou menos expostos, e se isso ocorrerá somente quando os proveitos estratégicos esperados compensem os perigos calculados. E, claro, riscos deve ser calculados antes de assumidos.
Como sempre, ninguém é obrigado a concordar com minha opinião, até porque também não dispenso o ar condicionado e isso aparentemente me desqualifica para meter meu bedelho no trabalho dos outros. Aliás, sempre tem a alternativa de mudar o nome da Leitão da Silva para Avenida Brasil ou Linha Vermelha.