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Memória

Lição de Clarice Lispector sobre liberdade de expressão

Os “fechados com Bolsonaro” são resquícios dessa direita autoritária, que veem na imprensa um obstáculo aos seus ideais de governar sem oposição, com um congresso de fachada, como era nos tempos da ditadura

Públicado em 

15 fev 2021 às 02:00
Francisco Aurelio Ribeiro

Colunista

Francisco Aurelio Ribeiro

Protesto no Rio de Janeiro em 1968, durante a ditadura militar
Protesto no Rio de Janeiro em 1968, durante a ditadura militar Crédito: Arquivo Nacional
Somente quem viveu os tempos de chumbo da ditadura militar, de 1964 a 1979, sabe o que é viver sem poder se expressar por meio das palavras, instrumento primeiro de comunicação entre os humanos. Até na literatura para crianças isso se refletiu.
Clarice Lispector (1920-1977), a maior escritora brasileira de todas as épocas, escreveu o livro “O Mistério do Coelho Pensante”, a pedido de seus filhos, segundo ela, em 1967. É uma história de um coelho comum, igual a todo coelho, chamado Joãozinho, que não fala, como os animais das fábulas, mas cheira o mundo, como todos os coelhos.
Só que o coelho foge da gaiola que o aprisiona, quando queria comer cenouras e não lhe davam. O que ninguém consegue descobrir é como o coelho foge de sua gaiola para “cheirar” o mundo. De tanto fugir da gaiola, o coelho toma gosto por essa experiência e, ao ganhar a liberdade, o coelho pensante descobre o amor, adivinha que a Terra é redonda e passa a se interessar por muitas coisas além de cenouras.
Ao utilizar a metonímia do coelho com seu nariz farejador, a autora encena uma forma de pensamento sensorial, instintivo, um pensar-sentir que liberta Joãozinho das grades da necessidade por comida, colocando-o no universo da imaginação. Por outro lado, há a metáfora anunciada no título: ao contrário de todos os outros coelhos, esse é pensante, motivo pelo qual pode fugir das grades de sua prisão.
Primeiro livro de Clarice Lispector escrito para as crianças, "O Mistério do Coelho Pensante" recebeu do Ministério da Educação o prêmio de melhor livro para crianças e lhe abriu as portas para um público que, até então, não a conhecia. Hoje, essa e outras quatro obras infantojuvenis da autora são reeditadas, sucessivamente.
No ano seguinte ao dessa publicação, em junho de 1968, Clarice Lispector e Ferreira Gullar estavam na linha de frente dos escritores e artistas que apoiaram os estudantes na “Passeata dos Cem Mil”, ao lado de Nara Leão, Nana Caymmi, Caetano Veloso, Chico Buarque, Paulinho da Viola, Edu Lobo, Leila Diniz e muitos outros, protestando contra a ditadura. Os músicos carregavam faixas pela liberdade de expressão, as mães protestavam contra a prisão dos seus filhos, os professores reivindicavam liberdade de expressão em suas classes. Quem viveu esses tempos sabe do que estou falando.
E por que estou lembrando Clarice e essa passeata, agora, 53 anos depois? O motivo é que vejo renascer, fortemente, entre os saudosos da ditadura e seus filhos, a ideologia do autoritarismo e do fascismo. Os “fechados com Bolsonaro” são resquícios dessa direita autoritária, que veem na imprensa um obstáculo aos seus ideais de governar sem oposição, com um congresso de fachada, como era nos tempos da ditadura, e um Judiciário cooptado pelo Executivo.
O bolsonarismo é, hoje, em nosso país, uma seita ideológica, que segue um líder despreparado para o cargo que ocupa, sem ver que estamos no fundo do poço, um país à deriva, pária no mundo, com a economia destroçada, inflação galopante de alimentos, enorme massa de desempregados, famintos e sem teto vivendo nas ruas, violência desenfreada, milhares de pessoa morrendo, diariamente, vacina aplicada a conta-gotas e ele, o Capitão Cloroquina, nem aí pra tudo isso, preocupado com a liberação de armas e os filhos milicianos. Mas, mesmo sem carnaval, é hora de lembrar uma das marchinhas do passado: “Mourão, mourão,/ Vara madura que não cai,/ Mourão, mourão, mourão,/ Catuca por baixo que ele vai”...
Os artigos assinados não traduzem, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

Francisco Aurelio Ribeiro

É doutor em Letras, professor e escritor. Seus textos tratam de literatura, grandes nomes do Espírito Santo e atualidades.

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