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É doutor em Letras, professor e escritor. Seus textos tratam de literatura, grandes nomes do Espírito Santo e atualidades. Escreve quinzenalmente às segundas

O resultado das eleições revela a cara do nosso país

Nas urnas, ficou o recado de que o Brasil é machista, racista e homofóbico

Publicado em 07/12/2020 às 05h00
Atualizado em 07/12/2020 às 05h03
Urna - confirma
Um terço do eleitorado brasileiro não quer exercer seu sagrado direito de escolher seus governantes. Crédito: Carlos Alberto Silva

Prometo que é a última vez que vou falar de eleições neste ano, mas não posso deixar de comentar o que vi e senti, após baixar a poeira. Em primeiro lugar, a questão da abstenção em torno de trinta por cento, ou mais, não é, totalmente, devido à pandemia. Na hora em que fui votar, a praia estava lotada, a maioria sem máscara, e aposto que muitos ali nem passaram perto de uma urna. Ou seja, um terço do eleitorado brasileiro não quer exercer seu sagrado direito de escolher seus governantes e representantes no legislativo, por descrença, cansaço, preguiça, acomodação ou por qualquer outro motivo que lhe dê na telha. 

Nossa geração, que ficou vinte anos sem poder votar durante a ditadura, e lutou muito para recuperar esse direito na campanha pelo “Diretas, Já”, pode até estranhar, mas mesmo muitos de nós, sexagenários ou mais, não queremos mais exercer esse direito. Fazer o quê? Mudar a legislação. O voto deve ser facultativo, não mais obrigatório. Vota quem puder e se quiser. Simples, assim.

O segundo ponto é o da representatividade das mulheres em nossa sociedade. Estatisticamente, elas representam mais de cinquenta por cento do eleitorado e da população. No entanto, conforme o portal da agência do Senado, ”além da cota de 30% de candidaturas femininas, nesta eleição municipal, foi a primeira vez que entraram em vigor as novas regras da reserva de, no mínimo, 30% dos fundos eleitoral e partidário e a aplicação do mesmo percentual ao tempo de propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão para as mulheres, com a obrigatoriedade dos partidos de fazer a divulgação dessas candidaturas. Ainda assim, nas eleições deste ano, foram 2,5 mais homens que mulheres candidatas para os cargos de prefeito, vice e vereador no Brasil, somando 370 mil candidaturas masculinas contra 187 mil postulantes do sexo feminino”.

E o resultado foi revelador: apenas uma capital, Palmas, elegeu uma mulher. Das cinco que disputaram o segundo turno, todas perderam. E nas prefeituras do interior, poucas mulheres foram eleitas. No Espírito Santo, só uma, a de São Domingos do Norte, Ana Izabel Malacarne, do DEM

Simone Beauvoir estava certa quando disse que os homens são solidários e corporativistas, ao contrário das mulheres que não confiam umas nas outras. Creio que a solução seja estabelecer cota não para candidatos, mas para os cargos, pelo menos no legislativo. Ou seja, homens, mulheres e LBTQ+ deveriam dividir o número de cargos conforme sua participação na sociedade. Polêmico, mas só assim contemplaríamos democraticamente a realidade social.

O resultado das eleições revela a cara do nosso país: machista, racista, homofóbico. Uma das poucas mulheres eleitas, a prefeita de Bauru, por ser negra, foi ameaçada de morte por um desses "haters" de rede social. Tomara que seja identificado, preso, denunciado e condenado por racismo e ameaça de morte. Negar o crime é a principal forma de ocultá-lo e de deixá-lo se expandir. 

Somos uma sociedade com grandes problemas sociais, formada sobre o trabalho escravo, que privilegia classes e categorias, tratando de forma discriminatória negros, índios, mulheres, homossexuais e todos que acha diferentes do modelo que nos foi imposto como o correto. Somos uma sociedade de maioria cristã, que não age com cristianismo, liderada por um presidente negacionista que usa o nome de Deus pra justificar seus erros. O Brasil não está acima de tudo e nem Deus acima de todos. O Brasil é apenas um dos 195 membros das Nações Unidas, se contarmos os dois membros observadores, Vaticano e Palestina, e Deus não está acima de todos, mas no meio de nós, se realmente agirmos conforme os princípios cristãos.

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