Acompanho as Copas do Mundo de Futebol desde pequeno, pois meu pai era jogador de futebol de fim de semana e fanático pelo esporte bretão. Jogava de zagueiro no time de futebol de Ibitirama, do qual era diretor, técnico e financiador. Minha infância foi passada à beira do gramado, pasto de animais durante a semana, no quintal de nossa casa. Me lembro da Copa de 1958, ouvindo o jogo pelo rádio, no colo dele, e jogado para o alto toda vez que saía um gol do escrete canarinho, lá na longínqua Suécia.
Na de 1962, o destaque foi o Garrincha e suas pernas tortas, mais o seu conturbado amor por Elza Soares, uma das cantoras mais famosas da época. Me lembro de o papai ter estranhado a presença dela na concentração, mas o importante era vencer. E fomos bicampeões.
A de 1966 foi dramática. Meu pai se foi, levado pelas águas do rio Braço Norte Direito, em janeiro, e com ele a alegria de curtirmos juntos os jogos de futebol. A Inglaterra foi campeã e o Pelé nosso não brilhou. Quem se destacou foi outro Pelé, o Eusébio, de Portugal. Nos intervalos entre um jogo e outro, ouvia-se, pelo rádio, a lista de políticos cassados pela ditadura militar. Um horror! E ainda tem gente querendo retroagir àqueles tristes tempos. Meu Deus!
Aí veio o tricampeonato no México e os setenta milhões em ação, sufocados pelo "Cale-se!" da censura e da repressão, puderam sair à rua e comemorar, histérica e historicamente, as vitórias da Seleção Brasileira. Foi o melhor time que já vi jogar, pois estavam tão entrosados, que um olhava pro outro, passava a bola e arrancava pro gol. Creio que nunca mais a Seleção esteve tão afinada, talvez, somente a de 1982, na Espanha, que perdeu e, por isso, não ficou na História.
As Copas de 1974 e 1978 passaram, literalmente, batidas, bem como as de 1986 e 1990. Nesta, nós estávamos na Argentina e assistimos, mudos, à comemoração dos argentinos pela eliminação do Brasil. Para eles, o Brasil perder é tão bom quanto a Argentina ganhar.
Aí veio o tetra, nos EUA, em 1994, e o penta, em 2002, no Japão e na Coreia. O cabelo à Cascão do Ronaldo Fenômeno ficou na História, bem como o trio Ronaldo, Rivaldo, Romário. De lá para cá, melhor esquecer, inclusive a terrível goleada de 7x1 da Alemanha, dentro de casa, em 2016. Creio que o papai se envergonharia e ficaria deprimido um bom tempo se tivesse assistido ao desastre, pois sofreu a derrota para o Uruguai, no Maracanã, em 1950.
Enfim, mais uma Copa do Mundo de Futebol, agora no Golfo Pérsico. Pela primeira vez, a Copa é realizada no deserto, pela primeira vez, no final do ano, por causa do calor, e, pela primeira vez também, em um país islâmico. Diferente das anteriores, a cerveja é cara e rara. País onde o álcool é proibido, liberou para os turistas em lugares restritos, e a preço de sheik. Também não se permitem manifestações amorosas nos lugares públicos, mulheres não são bem-vindas aos estádios e gays só “no armário”. O Brasil deve passar pela primeira fase, como sempre, afinal Sérvia, Suíça e Camarões não são bichos de sete cabeças. Ou foram? (Escrevo antes dos jogos, por isso, não sei qual será (foi) o resultado.
Pela bolsa de apostas, o Brasil é o favorito, quase sempre o é, mas sabemos que a nossa Seleção sempre tem ótimos valores individuais, mas que nem sempre conseguem formar uma boa equipe, pelo individualismo. Tiveram pouco tempo para treinar juntos e tomara que se entrosem para conseguir os resultados esperados por todos.
Nós, brasileiros, almejamos o hexacampeonato há vinte anos e, talvez, o consigamos, o que seria dar um pouco de alegria a um povo tão sofrido e calejado pelas agruras da vida. Todavia, Espanha, França, Alemanha, Inglaterra, Argentina também estão bem cotadas e podem ser as pedras nas chuteiras de nossos nossos craques. Quem viver verá.
*Este texto foi escrito e enviado antes do início da Copa do Mundo.