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Bloqueio nas estradas

O atentado à democracia brasileira após as eleições

Com a vitória incontestável do Lula, 24 horas depois pipoca, por todo o país, uma paralisação de caminhoneiros bolsonaristas, interditando estradas e rodovias e impedindo o direito constitucional de ir e vir

Publicado em 07 de Novembro de 2022 às 02:00

Públicado em 

07 nov 2022 às 02:00
Francisco Aurelio Ribeiro

Colunista

Francisco Aurelio Ribeiro

Protesto antidemocrático nas rodovias. Rodovia Dutra, Km 161, sentido Rio de Janeiro
Paralisação de caminhoneiros bolsonaristas se espalhou pelo país Crédito: Rubens Cavallari/Folhapress
A democracia brasileira deu mostra de sua vitalidade quando foi às urnas, no dia 30 de outubro, e elegeu os novos administradores do Brasil, o presidente da República, doze governadores e alguns prefeitos. Tudo transcorreu na mais perfeita paz, não houve grandes filas, como no primeiro turno, nem boca de urna explícita, nem desavenças políticas nos lugares de votação.
Havia um clima de tensão no ar, todos sabiam que a eleição presidencial seria disputada voto a voto, e os dois lados tinham expectativa de vitória. Ao final da manhã, começou a circular nas redes sociais que a Polícia Rodoviária Federal estava dificultando a chegada dos eleitores às urnas, sobretudo no Nordeste, com fiscalizações imprevistas de veículos condutores de eleitores. Denúncias foram feitas aos Tribunais Eleitorais, o mandachuva da PRF foi chamado ao Supremo para se explicar, o que, certamente, minimizou o problema.
Fechadas as urnas, os votos foram enviados ao computador central e aí começou a agonia. Foram pouco mais de três horas de sofrimento, com Bolsonaro à frente por mais da metade do tempo, até que Lula virou com os votos do Nordeste, do Pará, do Amazonas e de Minas Gerais, que não negou fogo, mais uma vez, apesar da forte atuação do Zema, governador reeleito.
Lula ganhou com 60 milhões de votos contra 58 do atual presidente. Vitória na raça, incontestável, apesar de toda a máquina da República em favor do ainda presidente. Nunca antes na história deste país se colocou tanto dinheiro público na campanha eleitoral para se reeleger um presidente, em período eleitoral.
O aumento de beneficiários e de valores do Auxílio Brasil, apenas no período do pleito, o auxílio dado a caminhoneiros e a taxistas, o não reajuste no preço da gasolina, que disparou no dia seguinte ao da eleição, a máquina pública em favor do presidente, tudo isso deverá ser analisado pelo STF, o que poderá tornar Bolsonaro inelegível por oito anos, se não o levar à prisão. O tempo dirá.
Proclamado o resultado da eleição, com a vitória incontestável do Lula, o presidente do Congresso e o do Senado, a presidente do STF, o vice-presidente da República e vários mandatários estrangeiros reconheceram o resultado e parabenizaram o presidente eleito pela maioria dos eleitores. Ele, não. Quem? O ainda presidente, que se fechou com assessores e permaneceu em silêncio. Vinte e quatro horas depois, pipoca, por todo o país, uma paralisação de caminhoneiros bolsonaristas, interditando estradas e rodovias e impedindo o direito constitucional de ir e vir de todos os brasileiros, num flagrante atentado à Constituição e à democracia.
A Polícia Rodoviária Federal, tão zelosa em fiscalizar veículos de eleitores, se omitiu, cruzou os braços e ficou olhando o barco pegar fogo. Novamente, o Supremo Tribunal teve de agir e ameaçar multar os responsáveis pela paralisação ilegal, além de convocar as polícias militares estaduais para intervir. Aos poucos, as estradas e rodovias vão sendo reabertas, mas os caminhões parados com mercadorias provocarão o desabastecimento, os milhares de ônibus que não circularam trouxeram graves prejuízos aos usuários. Tudo isso deve ser investigado e os responsáveis por essa ação terrorista não são os comunistas ou socialistas, como os chamam os da direita ultranacionalista, nazifascista, cujo cabeça acaba de ser defenestrado do poder.
Quarenta e cinco horas após proclamado o resultado, Bolsonaro convoca a imprensa para o seu pronunciamento. Agradeceu aos eleitores que votaram nele, se autoproclamou o líder da direita ultranacionalista, defensor dos valores de “Deus, Pátria, Família e Liberdade”, os mesmos de Mussolini, e não parabenizou o vencedor. Mal-educado, como sempre.
Só falta mandar invadir o Congresso no dia da posse, como fez Trump, seu líder-mor, ou convocar a milícia armada para impedir a posse. Tudo é possível a quem não age com a razão, mas com a emoção desequilibrada dos insensatos. Será uma extensão da agonia esperar até janeiro. Talvez seja melhor o Congresso Nacional diminuir esse prazo e marcar a posse para 15 de Novembro, o dia da Proclamação da República. Fica a sugestão.

Francisco Aurelio Ribeiro

É doutor em Letras, professor e escritor. Seus textos tratam de literatura, grandes nomes do Espírito Santo e atualidades.

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