Com o resultado mais acirrado desde a redemocratização do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito para um terceiro mandato à presidência da República, enquanto Jair Bolsonaro foi o primeiro presidente a não conseguir a reeleição, mesmo diante de notícias de pressão eleitoral, como noticiado na última terça-feira pelo "Profissão Repórter". Apesar de Bolsonaro ter perdido, o bolsonarismo não morreu e continua bem vivo.
Prova de que o bolsonarismo continua na ativa são os movimentos antidemocráticos e golpistas que se instalaram em algumas rodovias para, de forma ilícita, confrontar o resultado das urnas e a vontade expressada pela maioria dos eleitores brasileiros. Diz-se com veemência que os movimentos se portam de forma ilícita porque a pauta que apresentam é totalmente infundada e moralmente reprovável. Por não aceitarem que seu candidato perdeu as eleições, acham-se no direito de interromper o direito de ir e vir, prejudicando pessoas que precisam ir a tratamentos, por exemplo, e a economia nacional.
Há não muito tempo, esses que decidiram contestar o resultado das urnas bloqueando rodovias diziam que aqueles que não apoiavam integralmente Jair Bolsonaro estariam “torcendo contra o Brasil”. Ora bem, nesse sentido, ao menos por coerência, eles também não deveriam se abster de atos que efetivamente prejudicam o país? Onde foi parar um dito senso de amor à pátria com bandeiras do Brasil hasteadas nas janelas?
Nesses momentos, fica claro que detrás de muitas das bandeiras verde e amarela, de patriotismo, pouco ou nada havia. Do contrário, respeitariam o resultado das urnas e posicionar-se-iam como oposição consciente em vez de apelar ao já conhecido “quanto pior, melhor”.
E se o que está ocorrendo fosse o contrário? Se, em caso de eventual reeleição de Jair Bolsonaro, movimentos como o MST estivessem tentando disseminar o caos no afã de empurrar sua escolha eleitoral goela abaixo? Certamente seriam tratados como terroristas e haveria muitos que desejariam que fossem mandados para Cuba ou Venezuela.
Porém, o MST nunca atuou com tal modus operandi em derrotas do PT ou da esquerda nas urnas. Aliás, a grande maioria das invasões de terras pelo MST se deu em propriedades que não cumpriam a função social. A propósito, quando Fernando Haddad perdeu para Bolsonaro, em 2018, ou por ocasião do impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, os apoiadores de Haddad e Dilma não fecharam rodovias impedindo que mercadorias circulassem e que as pessoas pudessem ir ao médico ou onde quisessem.
Desse modo, engana-se quem pensa que o bolsonarismo morreu com a derrota de Bolsonaro nas urnas. A bem da verdade, o bolsonarismo sempre existiu no Brasil, conquanto outrora não houvesse essa designação específica. O bolsonarismo nada mais é, senão, a extrema direita com um ranço histórico contra tudo aquilo que diga respeito aos direitos de quem não pertence à aristocracia brasileira.
É por isso que há muito tempo está impregnada na sociedade brasileira a ideia de que direitos humanos seriam para proteger bandidos, quando, na verdade, os direitos humanos surgiram, principalmente, para assegurar-se liberdade aos cidadãos e respeito ao mínimo de garantias para uma vida digna. Mas, numa sociedade que muito tardou para abolir o escravagismo ou para assegurar-se o direito ao voto das mulheres, nunca interessou às elites o discurso em defesa dos direitos humanos.
Por isso, volto a dizer, o bolsonarismo permanece vivo, ainda que mais cedo ou mais tarde outro político seja escolhido como porta-voz da extrema-direita brasileira. Nesse contexto, não serão fáceis os próximos anos para o presidente eleito, não porque a oposição terá um discurso bem fundamentado, senão porque aprenderam que o caos também serve para alimentar seus interesses.
Há muito pela frente, mas a vitória do agora presidente eleito Lula confirmou que o país está bastante dividido e que não será fácil a missão de pacificá-lo e diminuir o intenso clima de ódio. Mas, no final das contas, quem ganhou no último domingo foi a democracia brasileira, que provou em alto e bom som que é pujante e necessária.