Lacy Ribeiro (1948-2013) foi uma das mais importantes escritoras capixabas de sua geração, a da década de 80, juntamente com Luiz Fernando Tatagiba, Amylton de Almeida, Sérgio Blank e Waldo Motta. Deixou sete livros publicados, a maioria premiada em concursos literários. Seu primeiro livro, publicado em 1982, era de poesias e o título “Primeiro Passo” indicava uma autora iniciante nas letras, mas disposta a caminhar.
Em entrevista ao jornal A Gazeta, em janeiro de 1990, ela afirmava que seu surgimento como escritora se deveu à “falta de estímulo” no mercado capixaba. “Para mim, foi um desafio a negativa absoluta de uma oportunidade”. Ela criticou o fato de a Fundação Ceciliano, da Ufes, publicar o livro de autor capixaba e não o divulgar. “O escritor fica morto cá fora e mofado lá dentro, muito mal pago, nos porões da Fundação, aquele cemitério de livros que ninguém vê”. (Marzia Figueira. Literatura em tempo de espera. Caderno Dois. A GAZETA. 09/01/1990).
Trinta e cinco anos após esse depoimento a Marzia Figueira, jornalista de A Gazeta, e quase treze após seu brutal assassinato com treze facadas, mais um feminicídio em terras capixabas, o Dr. José Barreto Mendonça me convidou a ajudá-lo a organizar um livro com a obra completa de Lacy Ribeiro, visto que as atuais gerações não a conhecem.
Com autorização de sua única irmã viva, Lucy Fernandes Ribeiro, técnica em Enfermagem aposentada, nascida em 1944, será republicada sua obra completa, para que Lacy Ribeiro continue sendo lida, seu nome não seja esquecido e sua memória perpetuada. Sem qualquer financiamento de órgão público, o livro se deve, unicamente, à magnanimidade e à generosidade do Dr. Barreto, seu amigo e colega de trabalho na Polícia Civil.
Lacy Fernandes Ribeiro, poeta, contista, romancista, nasceu em Barra de São Francisco em 1948, tendo vindo para Vitória ainda jovem, aos 16 anos, para estudar e trabalhar, como foi o destino de tantos capixabas de sua geração. Era o dia 31 de março de 1964, data em que se iniciava a ditadura militar, que marcaria “anos de chumbo” nos quais viveríamos a repressão, o medo, a falta de liberdade e que se refletiria na literatura de toda uma geração, de uma forma mais ou menos realista.
Para ela, escritora de viver até a última consequência o que escrevia, a literatura se apresentava como uma forma de denúncia das misérias sociais, com um olhar misto de ternura e de encantamento pelos miseráveis dos guetos e das sarjetas escuras de Vitória, personagens de sua prosa mínima com quem convivia na ida para o trabalho ou para a faculdade de Direito.
Vitória tinha deixado de ser a cidade provinciana, bucólica, idílica do passado, para se transformar numa cidade congestionada, violenta, segregadora, com a vinda de milhares de pessoas iludidas pela possibilidade de trabalho nos grandes projetos industriais implantados em seu entorno pelos ditadores militares e pelo êxodo rural provocado no campo pelo desmatamento e pela erradicação dos cafezais.
Para muitos, Vitória foi a capital da esperança que, logo, se tornaria uma Derrota. A literatura de Lacy Ribeiro retratou essa mudança e esses personagens. Em nenhum livro de história geral ou do Espírito Santo se pode ler com tanto realismo essa transformação social e o “zeitgeist” dessa geração como na prosa de ficção de Lacy Ribeiro, Amylton de Almeida e Fernando Tatagiba, ou nos poemas de Waldo Motta e Sérgio Blank.
Lacy Ribeiro é de uma geração pós-Segunda Guerra, da qual participaram também Amylton e Tatagiba, seus amigos que escreveram o prefácio e a orelha de um de seus primeiros livros, “Avenida República”, publicado em 1987. A obra de Lacy Ribeiro se opunha a tudo o que se fazia, até então, na literatura dos capixabas. Pelo menos com relação à linguagem, aos temas e aos personagens.
O auge de sua carreira literária ocorreu ao ganhar dois concursos literários do DEC, hoje Secult, na categoria romance, em 1989, com Rocks e Baladas de Marcos Furtado, obra que tematiza as dificuldades do protagonista para assumir sua homossexualidade, na sociedade provinciana de Vitória dos anos 60 e 70 e, em 1990, na categoria Contos, com Contos Bastardos, sua melhor obra literária. Nos sete contos, há uma narrativa catártica, enfocando personagens marginais, psicóticos, num cenário final de século, pós-moderno.
Lacy Ribeiro ganhou mais um prêmio, em 1993, na categoria infantojuvenil, com seu conto Grades Suspensas e desapareceu do cenário literário. Fez concurso para a Polícia Civil como delegada e passou a trabalhar diretamente com os marginais que sempre a seduziram. Apaixonou-se por um deles, um presidiário, e contou essa história no romance autobiográfico Paixão de Cárcere, Romance Proibido, sua última obra, publicada em 2009.
Mais uma vez seu nome sumiu das páginas culturais e literárias da cidade, só aparecendo, em janeiro de 2013, nas páginas policiais, assassinada com treze facadas por um de seus personagens. Lacy Ribeiro foi mais uma vítima de feminicídio, essa praga social que mata treze mulheres por dia, no Brasil.
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