Em tempos de isolamento social e de limitação do direito de ir e vir, de medo do outro e de máscaras que cobrem parte do rosto e, às vezes, caem, resta-nos a solidão dos domicílios e o encontro com nós mesmos, com os que estão igualmente isolados conosco e a nossa memória. Nesse viajar sem sair de lugar, restam-nos os livros, para quem gosta de ler, e a escrita aos que são a ela impulsionados.
Tanto para leitura quanto para a escrita, a memória é o que nos conduz. Nesses dias de maio enlutado, em que mais de 300 mil se contaminaram e mais de 20 mil pessoas perderam a vida pela peste que nos assola, desliguemos os noticiários e nos afastemos das redes sociais ou nos enlouquecemos.
Ninguém aguenta tanta pressão, tantos números catastróficos, tantas pessoas em busca inútil por tratamento, tantos corpos enrolados em plástico ao lado de próximas vítimas, tantos caixões enterrados sem o último adeus, sabendo que podemos ser o próximo número das estatísticas fúnebres.
Ninguém mais aguenta o riso sarcástico do capitão cloroquina que nos desgoverna com o seu “e daí?” impiedoso. Ninguém mais suporta o seu desprezo pela vida dos outros, o seu desamor pelo semelhante, o seu cinismo ao dizer que “a direita toma cloroquina e a esquerda toma Tubaína”. Não é hora para piadas, para brincadeiras e muito menos para a ignorância.
Por menos que isso, a Dilma caiu. É preciso que os brasileiros de bom senso reajam, que as leis imperem e que esse capitão expulso do Exército, que nem pra ele serviu, seja defenestrado e que alguém de juízo perfeito assuma o governo de nosso país, muito maior do que a mediocridade no poder. Nunca antes na história deste país vimos tanto descalabro, tanta incompetência, tanto desgoverno.
Até o auxílio emergencial para os desempregados acabou caindo na mão de quem dele não precisa, como alguns militares - alguém sabe dizer quem foi o ordenador dessa despesa? - provoca filas desumanas nas portas dos bancos, propiciando a propagação desse maldito vírus, enquanto licitações fraudulentas compram, da China, respiradores que não funcionam, aventais que não servem, kits para testes que não são suficientes.
Diante de tanta dor, de tanta tragédia, de tantos números catastróficos, nossa válvula de escape é a memória. Volto à infância, aos maios de outrora, quando se celebrava o mês de Maria, com procissões, flores, coroações, leilões de belas prendas, em benefício das obras da igreja. Sinto no ar o perfume das flores simples que levávamos nas mãos para oferecer a Nossa Senhora. Era uma consagração também às mães, cujo dia é no segundo domingo de maio, que, neste ano, ficou prejudicado pelo isolamento social.
Sei, tiveram as lives, as mensagens de WhatsApp, todas essas modernidades criadas para unir os que estão distantes e afastar os que estão próximos. Nada disso substitui o contato humano, a presença física, o abraço carinhoso, o beijo gostoso, o aconchego, pois, como diz o poeta, “oi melhor lugar do mundo cabe dentro de um abraço”.