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Censura não!

Cala a boca já morreu: falta de respeito e empatia do capitão de bravatas

Quem viveu períodos sombrios da história do país não pode aceitar que um tiranete no poder, um capitão de gravatas, durante a semana, ou um capitão de bravatas, aos domingos, colérico e com o dedo em riste, mande um jornalista calar a boca

Publicado em 11 de Maio de 2020 às 05:00

Públicado em 

11 mai 2020 às 05:00
Francisco Aurelio Ribeiro

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Francisco Aurelio Ribeiro

Com a manchete do jornal Folha de S. Paulo, Bolsonaro atacou jornalistas
Com a manchete do jornal "Folha de S. Paulo", Bolsonaro atacou jornalistas Crédito: Pedro Ladeira/Folhapress
A censura acabou oficialmente, no Brasil, em 1979, e a década de 1980 foi uma década de muita luta para se restaurar a liberdade e a democracia no Brasil, culminada com a promulgação da Constituição Democrática de 1988. Quem viveu a luta pelas “Diretas Já”, a campanha pela Constituinte e o impeachment do Collor, em 1992, não pode aceitar que um tiranete no poder, um capitão de gravatas, durante a semana, ou um capitão de bravatas, aos domingos, colérico e com o dedo em riste, mande um jornalista calar a boca.
Não estamos na Coreia do Norte, na China, na Venezuela ou em Cuba, onde calar-se é uma condição de sobrevivência, o Brasil é uma democracia, os três Poderes funcionam com autonomia e a liberdade de imprensa e de opinião é um direito duramente conquistado.
Vivemos um período terrível da história da humanidade, algo parecido com o que ocorreu há 100 anos, com a epidemia da Gripe Espanhola, que exterminou boa parte da humanidade ou com as epidemias de cólera e de varíola devastadoras em passado não tão remoto. Em nosso país, mais de dez mil pessoas já morreram e ainda não chegamos ao ápice da crise.
Outros milhares morrerão, com hospitais superlotados, sem leitos de UTI suficientes, sem profissionais de saúde para atender a tantas pessoas, sem equipamentos de segurança para eles e sem respiradores para os que estão em estado crítico. É o caos previsto, pois não cumprimos o isolamento social necessário para evitar que a situação chegasse a esse ponto.
Por outro lado, o capitão de bravatas responde a esse caos na saúde e a esses milhares de morte com um desprezível “E daí?”. Sem qualquer empatia, sem qualquer respeito à vida desses milhares de brasileiros que estão sendo sepultados em covas rasas, sem, ao menos, ter direito ao último adeus de seus familiares, o capitão de piratas pratica tiro ao alvo ou convida os áulicos para um churrasco no Palácio do Planalto.
D. Pedro II, governante do Brasil no século XIX, mandou vender joias da coroa para socorrer atingidos pela seca no Nordeste e visitava os doentes da peste negra nos hospitais do Rio, em 1855. O Rio de Janeiro foi uma das províncias mais atingidas pelo cólera. Calcula-se em mais de 200 mil mortes naquela epidemia e esforços foram movidos por médicos e administradores para atender a todos os doentes.
O hospital de Santa Isabel atendeu especialmente aos coléricos e a visita de D. Pedro II ficou imortalizada na tela de Louis-Auguste Moreaux. A historiadora Mary Del Priore conta que, na época da epidemia, o imperador mostrou-se incansável. Em vez de refugiar-se em Petrópolis - como fez a elite - parava seu carro à porta dos hospitais, penetrava nos focos da epidemia, aproximava-se do leito dos coléricos, falava a todos eles, robustecendo a coragem dos fortes, inspirando valor e ânimo aos fracos e enchendo de esperança, de fé e de gratidão o coração dos míseros doentes”.
Essa é a diferença entre um grande estadista e um capitão de milícias sem qualquer respeito à dignidade humana e sem amor ao próximo.

Francisco Aurelio Ribeiro

É doutor em Letras, professor e escritor. Seus textos tratam de literatura, grandes nomes do Espírito Santo e atualidades.

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