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Em tempo de quarentena

Eis o dilema: seguir a vida e não prejudicar a economia ou salvar vidas?

Parece que estamos diante de uma ética inversa ao que predominou até agora nos naufrágios: mulheres, crianças e idosos primeiro. A ética mercantilista nesta nova crise é: os sãos, atletas e jovens sobreviverão. Os outros são um peso, podem morrer

Publicado em 30 de Março de 2020 às 05:00

Públicado em 

30 mar 2020 às 05:00
Francisco Aurelio Ribeiro

Colunista

Francisco Aurelio Ribeiro

Mulher olhando pela janela: nova rotina com coronavírus e isolamento
Mulher olhando pela janela: nova rotina com coronavírus e isolamento Crédito: Alexandre Chambon/Unsplash
Estamos vivendo tempos muito difíceis, sem saber muito bem o que está acontecendo ou o que virá. Parece um pouco a situação do personagem do célebre poema do Drummond, “E agora, José?”: “A festa acabou, A luz apagou, O povo sumiu, A noite esfriou, E agora, José?”, ou ainda, já que o poema de Drummond reflete mais um dilema individual do que coletivo ou social, “O Ensaio sobre a cegueira”, do Saramago, esse romance-fábula-alegoria dos tristes tempos em que vivemos, em que uma terrível “treva branca” vai-se espalhando pela cidade, acometendo a todos e, em breve, uma multidão de cegos precisará a aprender a viver de novo, em quarentena.
Pois é, estamos todos de quarentena social, isolados em nossas pequenas famílias, tentando sobreviver do que ainda temos, sem saber por quanto tempo resistiremos, tentando nos proteger de um inimigo invisível, que ninguém sabe onde está, quando atacará e que é seletivo e cruel, pois ataca a todos, mas destrói mais fortemente os mais fracos, sobretudo os idosos e os que têm a saúde debilitada.
Diante dessa constatação, surge o dilema: deixar a vida acontecer, para não prejudicar a economia do país, ou parar tudo, só deixando as essenciais, e salvar vidas? Parece que estamos diante de uma ética inversa ao que predominou até agora nos naufrágios: mulheres, crianças e idosos primeiro. A ética mercantilista proposta nesta nova crise é: os sãos, atletas e jovens sobreviverão. Os outros são um peso para a economia, podem morrer, o que vai aliviar o sistema previdenciário. Perverso, não?
Não sei, meus amigos, mas o que está ocorrendo mesmo é uma crise geral de humanização. E não custa lembrar o que é isso, citando o mestre Antônio Cândido: “Humanização é o processo que confirma no homem aqueles traços essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor”.
Nesses tempos de confinamento social, explodiu o contato virtual, e acirraram-se as disputas entre grupos ideológicos diversos. Os ânimos ficaram muito exaltados, os nervos estão à flor da pele e o ódio, a intolerância, a agressividade imperam. Sugiro que as pessoas tentem se desconectar, um pouco, dos celulares, se aproximar mais do que estão próximos e cuidar mais de suas vidas espirituais e de sua sanidade mental.
Como amante dos livros e da literatura, sugiro que leiamos, de novo, se for o caso, o “Ensaio sobre a cegueira” ou o “Ensaio sobre a lucidez”, do já citado Saramago, “A peste”, do Camus ou “A montanha mágica”, do Thomas Mann. Talvez, assim, a gente possa refletir sobre esses tristes tempos e vivenciar o que Antônio Cândido afirmou no artigo citado: “A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade, o semelhante”, o que está faltando nos tempos atuais.

Francisco Aurelio Ribeiro

É doutor em Letras, professor e escritor. Seus textos tratam de literatura, grandes nomes do Espírito Santo e atualidades.

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