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Política em outro mundo

Um castelo dinamarquês que deveria servir de inspiração ao Brasil

A frugalidade dos políticos indo trabalhar de bicicleta, morando na própria casa e circulando pelas ruas, inclusive a primeira-ministra, faz contraste com a opulência do poder no Brasil. Quem sabe um dia chegaremos lá

Públicado em 

03 out 2020 às 05:00
Evandro Milet

Colunista

Evandro Milet

Dinamarca: país tem uma das melhores qualidades de vida do mundo
Copenhague, na Dinamarca: país tem uma das melhores qualidades de vida do mundo Crédito: Pixabay
Estamos acostumados com filmes e séries dos EUA com o contexto social e político daquele país. Uma ótima oportunidade de ver uma realidade diferente é a série dinamarquesa "Borgen", na Netflix. Borgen, ou castelo, é como os dinamarqueses designam o governo, que ocupa o Palácio Christiansborg, em Copenhague, o único edifício no mundo que abriga todos os três Poderes de um país: Executivo, Legislativo e Judiciário.
A trama trata da eleição da primeira mulher como primeira-ministra, ética, de centro, nesse país de regime parlamentarista. Mostra um gabinete de ministros metade ocupado por mulheres, e uma nitidez ideológica dos partidos de ficção semelhante à realidade do país com muitos partidos, da extrema esquerda à extrema direita.
Mal vista no Brasil, a negociação de ministérios se dá normalmente, como em outros países parlamentaristas. Para montar maioria para governar, há negociações das pautas políticas dos partidos que modificam a posição pessoal e do partido da primeira-ministra. Ela diz que modifica posições porque governa para todos e não apenas para os que a elegeram (amém!). Um partido pede mais verbas para meio ambiente no orçamento, outro quer mais para defesa e, às vezes, um político demanda uma estrada para o seu distrito.
Há problemas pessoais, trapaças, traições e chantagens e, muitas vezes, a pureza democrática da primeira-ministra escorrega no jogo do poder.
A Dinamarca tem uma das maiores rendas per capita, onde as pessoas são mais felizes, com a melhor educação, com baixíssimos níveis de corrupção e desigualdade. As pautas refletem temas fortes na região: imigrantes, feminismo, aborto, meio ambiente, energia eólica, espionagem, liberdade de imprensa e direitos humanos, mas nada sobre homicídios, assaltos, miséria ou militares no poder.
Um dinamarquês que trabalhou no Brasil estranhava nossa convivência com a morte, algo raro para ele, que só via acontecer por causas naturais e com pessoas na velhice. Corrupção, apenas o uso indevido de cartão corporativo pelo primeiro-ministro anterior, em valores risíveis para o nosso padrão, derrotado por isso na reeleição.
A frugalidade dos políticos indo trabalhar de bicicleta, morando na própria casa e circulando pelas ruas, inclusive a primeira-ministra, faz contraste com a opulência do poder no Brasil. Quem sabe um dia chegaremos lá.

Evandro Milet

É consultor e palestrante em Inovação e Estratégia. Neste espaço, novidades e reflexões sobre mercado de trabalho e tecnologia têm sempre destaque.

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