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Ensino superior

Pela autonomia universitária, reitoras e reitores eleitos devem ser nomeados

Desde 2019, sob a presidência de Jair Bolsonaro, as universidades brasileiras passam novamente por um período sombrio. Das 69 universidades federais, 20 tiveram seus processos de eleição desrespeitados

Publicado em 19 de Agosto de 2021 às 02:00

Públicado em 

19 ago 2021 às 02:00
Ethel Maciel

Colunista

Ethel Maciel

Campus da Ufes em Goiabeiras: bandidos furtaram 120 metros de fios de cobre
Campus da Ufes em Goiabeiras Crédito: Luciney Araújo/TV Gazeta
As universidades públicas devem ser as trincheiras de defesa da democracia. Já falamos isso de diversas formas, em muitos momentos no Brasil, mas desde a redemocratização esse tema nunca esteve tão atual. Foi a Universidade Federal do Espírito Santo, a nossa Ufes, que após solicitação do Ministério da Educação (MEC), instalou a Comissão da Verdade da Universidade Federal do Espírito Santo (CVUfes), que auxiliou na descoberta de muitas histórias do período da ditadura e cujo relatório final (http://repositorio.ufes.br/handle/10/6768) pode ser acessado pela sociedade.
A CVUfes ajudou a reconstituir algumas histórias, uma delas, do reitor Manoel Xavier Paes Barreto Filho, que teve seu mandato cassado em abril de 1964. Após a instrução da CVUfes, fizemos em abril de 2014, exatos 50 anos depois da cassação, a recondução simbólica do reitor ao seu cargo, na presença de sua família. Uma marca indelével de que devemos sempre defender a democracia e o Estado democrático de Direito.
Agora, novamente as universidade e institutos de ensino e pesquisa voltam a ser atacadas, e a democracia colocada em risco. Desde 2019, sob a presidência de Jair Bolsonaro, as universidades brasileiras passam novamente por um período sombrio. Hoje, das 69 universidades federais, 20 tiveram seus processos de eleição desrespeitados, porque o presidente nomeou candidatos que perderam as eleições no voto da comunidade universitária.
Diferentemente da lista tríplice de várias instituições, as universidades fazem consulta através de voto à toda comunidade universitária e, desde a redemocratização do país, o primeiro colocado na lista e vencedor da consulta à comunidade tem sua nomeação respeitada pelo presidente.
O ministro, com sua declaração, confirma o que já sabíamos: as nomeações desse governo têm sido pautadas na ideologia político-partidária de alinhamento a esse governo, quando deveriam se pautar no bem-estar das instituições, no livre pensar e principalmente no respeito à autonomia universitária, essa última, expressa nas urnas pela escolha de toda universidade e posteriormente nos conselhos superiores. Afinal, o ápice da democracia é o respeito ao voto.
Após essa declaração, a razão da intervenção na Ufes em 2020, quando o presidente nomeou o candidato que não ganhou nas urnas e nem nos conselhos superiores para a reitoria da instituição, vai ficando bem explicada. Aquela foi a eleição onde a comunidade universitária elegeu pela primeira vez uma mulher, pesquisadora e defensora dos Direitos Humanos.
Sempre terei muito orgulho por ter sido a escolha da comunidade universitária da Ufes e agora, mais que nunca, com um profundo senso de dever para dizer que, de fato, nunca estive alinhada aos que apoiam a morte, a negação da ciência e o arbítrio.
Mas a universidade pública representa muito mais que eu ou você. Ela representa aqueles que inclusive não estão lá, reflete o compromisso com os interesses e as necessidades da sociedade. Devemos sempre nos lembrar que, em meio toda essa catástrofe sanitária que é a pandemia, é a universidade pública brasileira que, em boa medida, tem dado as respostas à sociedade,  através de pesquisas, da extensão ou da divulgação científica no combate às fake news, e é por isso que, hoje, mais do que nunca, precisamos preservá-la e defendê-la.
A universidade pública é em essência a trincheira, o farol e a proteção dos valores democráticos. Não há na universidade lugar para cerceamentos, pelo contrário: a universidade é lugar da liberdade de cátedra, de expressão, dos valores máximos da democracia. E, por isso, todos que aspiram à sua gestão devem defender seus valores e devem portanto, passar pelo crivo das urnas.
Assim, a vigilância pela democracia deve ser constante. Compreendemos essa necessidade, de ontem, de agora e de sempre. Nessa trincheira de luta, a guerra ainda não acabou. A primeira batalha foi perdida, mas outras se avizinham. Em um movimento de resistência, todas as reitoras e reitores eleitos e não nomeados fazem parte também do processo no Supremo Tribunal Federal (STF), tendo o voto do ministro relator favorável ao pleito na Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI6565), de que reitoras e reitores eleitos, em respeito à autonomia universitária, devem ser reitoras e reitores nomeados.
Com essa e outras ações, vamos unindo esforços em favor da defesa da democracia e da autonomia das universidades. Para que possamos impedir que governos autoritários, ideológicos e intervencionistas possam interferir nas ações das instituições do Estado brasileiro. E como disse o filósofo Sófocles: “Não procures esconder nada; o tempo vê, escuta e revela tudo”.

Ethel Maciel

É enfermeira. Doutora em Epidemiologia (UERJ). Pós-doutora em Epidemiologia (Johns Hopkins University). Professora Titular da Ufes. Aborda nesta coluna a relação entre saúde, ciência e contemporaneidade

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