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Brasil

Reflexão número 1 sobre o 'Custo Bolsonaro'

Uma relação infindável de órgãos, instituições, pessoas e setores da sociedade civil, passou a compor a lista dos que seriam inseridos no chamado "Custo Bolsonaro"

Publicado em 13 de Julho de 2021 às 02:00

Públicado em 

13 jul 2021 às 02:00
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

O presidente Bolsonaro em evento na Serra Gaúcha
A lista do chamado "Custo Bolsonaro" é imensa. São muitas as instituições e personalidades que se viram apequenadas e desmoralizadas pela aproximação e apoio ao presidente Crédito: Anderson Riedel/PR
Tenho refletido, muitas vezes, em meio a sentimentos de indignação, impotência, vergonha e dor, acerca das diversas instituições, personalidades e sociedade em geral que têm sofrido perdas irreparáveis em razão da proximidade ou associação de seus nomes a Jair “messias” Bolsonaro, desde que a política brasileira passou a conviver com a possibilidade de que o mesmo pudesse vir a ocupar o posto mais importante do país, a Presidência da República.
Uma relação infindável de órgãos, instituições, pessoas e setores da sociedade civil, passou a compor a lista dos que seriam inseridos no chamado "Custo Bolsonaro". Devemos nos debruçar de forma detalhada sobre ele se quisermos compreender a dimensão exata das perdas individuais e coletivas que sofremos desde que Bolsonaro passou a ser considerado candidato possível a representar os interesses de setores conservadores atrasados e comprometidos com a execução de uma pauta ultraliberal de redução do Estado e de concentração de bens com a ampliação das desigualdades no Brasil.
Isso sem considerar o fato de que o “monstro”, criado e alimentado com poder, ou tolerado por outros considerando o alcance de interesses, nem sempre republicanos, saiu do controle e passou a agir de forma independente de seus criadores, em uma alucinação egoica, descontrolada, desvairada e pervertida.
Não possuindo a chave para desligar o ser criado inicialmente para agir como um robô monitorado à distância, atônitos, seus criadores buscam alternativas políticas para minimizar os custos da tragédia anunciada, mas não considerada, na época, como risco concreto dadas as evidências históricas que eram de conhecimento de todos.
A lista do chamado "Custo Bolsonaro" é imensa. São muitas as instituições e personalidades que se viram apequenadas e desmoralizadas pela aproximação e apoio ao presidente. Muitas delas, mesmo aquelas que ainda não o reconheceram publicamente, sentem-se constrangidas, desgastadas, vexadas, acabrunhadas, envolvidas em sentimentos de profunda vergonha histórica pela corrosão de seus valores e de sua credibilidade social, tendo suas entranhas expostas e suas mazelas avolumadas pelo discurso obsceno e sórdido do representante que escolheram para comandar os destinos da nação.
Bolsonaro, o queridinho do Conselho Federal de Medicina, é um negacionista oportunista, anticiência, que usou o CFM para sustentar normativamente a narrativa do tratamento precoce, enquanto fazia negócios milionários com as vacinas e a hidroxicloroquina, utilizando, inclusive, o Exército para produzir quantidades absurdas de tal medicação, empenhando milhões de reais de dinheiro público, agora objeto de investigação por parte do Tribunal de Contas da União (TCU). Envergonhou a classe médica, tão importante, digna e que tantos serviços tem prestado à nação.
Bolsonaro, o queridinho dos evangélicos, o mito, o messias enviado por Deus, o profeta anticorrupção, defensor da família e dos bons costumes, o “melhor presidente que o Brasil já teve” no dizer de um dos mais importantes e cultos líderes evangélicos de nosso país, tem a boca mais suja que já se viu no submundo onde se encontram todos aqueles taxados de pecadores vis, prostitutos da ética e da moral, por eles criticados.
Humilhados com o desvelamento do lamaçal na qual se chafurdaram, alguns honestos e ingênuos evangélicos se retraem emudecidos sem coragem de assumir os erros, envolvidos na arrogância típica dos moralistas que não reconhecem seus deslizes e se confortam na crença de que devem explicações apenas a Deus e não ao próximo. Outros, hipócritas e oportunistas de plantão, continuam a suportar a vergonha da convivência, na esperança de ter no STF um ministro “terrivelmente evangélico”.
Bolsonaro, o queridinho do Procurador Geral da República, violador por excelência da Constituição e do Direito, assumidamente um antidemocrata, que de forma sistemática ameaça as instituições da República com bravatas desmoralizantes, insolentes e intimidadoras aos membros dos outros poderes, como o STF e o Legislativo, alarga as distâncias entre o Ministério Público e o povo, provocando danos incomensuráveis à credibilidade de uma das instituições do Sistema de Justiça mais importantes para manutenção do Estado Democrático de Direito.
Bolsonaro, o queridinho das elites, elevado ao posto mais alto do país com o objetivo de implantar uma política econômica ultraliberalizante, capaz de reduzir o Estado a mero sustentador dos seus interesses, transferir o patrimônio público para o privado e aprovar leis que reduzam cada vez mais os investimentos em políticas sociais, se liberta de seus criadores e agora lhes dá as costas, sem compreender que a política externa e o reconhecimento internacional como nação moderna, potente e desenvolvida são fundamentais para alavancar a economia.
Bolsonaro, o queridinho de tantos e tantas que apesar de serem por ele humilhados, desmoralizados, achincalhados, troçados e pisoteados continuaram cegos em defesa do violador de suas dignidades, agora os deixa órfãos, muitos desempregados, sem auxílio emergencial compatível com suas necessidades básicas, mulheres sentindo na pele o aumento da violência de gênero, negros percebendo os sinais evidentes do racismo que se manifesta cada vez mais violento, dependentes exclusivos do SUS vendo os desvios de recursos públicos da saúde para empresas de fachada.
Enfim, o "Custo Bolsonaro" se alastra para muito além dos mais de 530 mil mortos que nos assombram, nos trazem dor, infelicidade, vergonha, revolta, indignação e fúria.
Cada custo deverá ser dimensionado detalhadamente para que possamos trazer à memória, enquanto é tempo, nossa história de lutas e de enfrentamentos da ditadura e da barbárie, lembrando que a ciência, a verdade, a esperança, a liberdade, a dignidade, a democracia, a justiça, a alegria e a vida digna são direitos possíveis de serem gozados e não apenas sonhados em uma dimensão utópica e transcendental, no porvir.
Nesse espaço, nas próximas semanas, faremos um exercício de analisar cada "Custo Bolsonaro" que possa ajudar a “trazer a memória aquilo que nos pode dar esperança”.

Elda Bussinguer

Pos-doutora em Saude Coletiva (UFRJ), doutora em Bioetica (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitaria

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