A pandemia apenas confirmou o que todos já sabiam: a saúde é o paraíso dos corruptos, dos corruptores e dos políticos. Sustentador do caixa 2 das campanhas eleitorais, o setor da saúde, o SUS em especial, continua a ser a Geni da República.
O SUS é ora chamado a dar sua contribuição e louvado como o grande salvador da pátria, como em tempos de pandemia, ora escorraçado como uma prostituta que precisa ser salva do pecado da ineficiência, por gigolôs ditos competentes, todos eles vinculados a um mercado insaciável, que vai modificando de nome e de natureza jurídica, na medida em que revelados seus verdadeiros interesses, qual seja, sugar os recursos públicos até o limite da exaustão.
Em uma ambiência amplamente favorável ao exercício das negociatas, dos acordos, dos apadrinhamentos, das burlas nos processos licitatórios, das compras emergenciais, da judicialização desmedida, fomentada e financiada pela própria indústria de medicamentos e de equipamentos hospitalares, as ratazanas fazem a festa enquanto o povo, instigado pelos “donos do poder” na saúde, dedica-se a criticar o SUS, sonhando em ter um plano de saúde para chamar de seu.
Assim como nos porões da ditadura se faziam sangrar os discordantes, normalmente taxados de comunistas, nos porões do Ministério e das Secretarias de Saúde, onde os processos tramitam, e no parlamento, onde as normas são produzidas de acordo com a conveniência de parlamentares dedicados ao interesse privado e não público, fazem-se sangrar os pobres e miseráveis, dependentes exclusivos do Estado, que acreditam serem detentores do Direito à vida e à saúde e se quedam esperançosos enquanto aguardam por liminares judiciais que lhes permitirão ter acesso a leitos e a medicamentos.
NEGACIONISMO
Enquanto alguns foram capturados pelo discurso antivacina e pelas teorias da conspiração sustentadas pelo medo do chip chinês, aparentemente convincente, sincero e honesto do presidente da República, o “melhor presidente que o Brasil já teve” no dizer de muitos, outros acreditaram, de fato, na existência de um discurso negacionista, ingênuo, pouco afeito à ciência e carregado da ignorância dos simples que se julgam sábios e que governam o mundo a partir dos diálogos travados consigo mesmos e com outros simplórios e honestos cidadãos.
Vemos agora, tão límpido como sob a luz do sol do meio-dia, que o negacionismo, fosse ele de que matiz fosse, nunca existiu na República sob a batuta de Jair Bolsonaro.
Enquanto perdíamos tempo discutindo a crença absurda do governo no tratamento precoce e nos possíveis riscos da vacina chinesa com seus chips a serem instalados em nós, acreditando, alguns, que a ignorância generalizada teria tomado conta do Palácio da República e do parlamento, negociações bilionárias eram feitas ao alvedrio da lei e da justiça, provocando a morte de milhares de brasileiros, enquanto nos ocupávamos dos absurdos colocados a nos ocupar o tempo.
O mito, comparado, por alguns, com Jesus Cristo, o anticorrupção, homem íntegro, dedicado e defensor dos valores cristãos, da moralidade e da pátria, que levou tantos a morrer ou a adoecer, acreditando que o tratamento precoce, os protegeria da doença, começa a se desmanchar no ar como bolha de sabão.
Mergulhado em um forte esquema de corrupção, Bolsonaro e sua gangue começam a perder o fôlego e a verem a lamaçal ameaçar sua capacidade de resistência e de convencimento das massas, especialmente dos evangélicos que lhe emprestaram a vida, a decência e a dignidade.
Os gigolôs e sanguessugas, que sempre estiveram a postos, ocupando os cargos e as canetas, fazendo e modificando leis a seu próprio interesse, assinando acordos e construindo belas narrativas sustentadoras de suas práticas corruptas, começam a aparecer, não porque se deseje, de fato, acabar com a corrupção no Brasil, mas porque é preciso, em algum momento, trocar a turma que se aproveita do Estado e que continuará se alimentando dos polpudos recursos destinados à saúde, que sempre encantam e mobilizam tantos defensores da moral e da pátria.
QUEM É RICARDO BARROS?
Ricardo Barros, o conhecido líder do governo Bolsonaro no Congresso, habilidoso negociador parlamentar, ex-ministro da Saúde do governo Temer, de 2016 a 2018, esteve presente, de alguma forma, articulando e se movimentando no controle dos destinos dos recursos da saúde, fosse por dentro, fosse por fora, em todos os governos pós-ditadura.
Ele é um velho conhecido de todos os verdadeiros defensores do SUS, ainda que somente agora veja seu nome tomar a dimensão midiática claramente ligada à corrupção. Ele não surge do nada para ocupar o centro do debate no maior escândalo da corrupção na República.
Ele é figurinha tarimbada, que conhece os caminhos do submundo, possui a expertise necessária para se livrar dessa e de outras denúncias às quais parece estar ligado. Ele sabe como se livrar de cada uma das acusações e tentará usar todo o conhecimento que possui e também as informações que detém acerca de muitos que com ele compartilharam a farra. O medo se instala como sentimento compartilhado por muitos que, a partir de agora, aguardam chegar sua vez de serem lembrados por algum depoente ou por documentos incriminadores.
Agora é a hora de os amigos da corte saírem na defesa e na proteção de Ricardo Barros, e eles o farão com todo o poder que possuem. O Centrão, que todos sabemos, por não possuir caráter ideológico, mas fisiológico, haverá de fazer as negociações necessárias à proteção de seu articulador mais sagaz e comprometido com os interesses do grupo.
Ricardo Barros conhece como ninguém os segredos dos porões. Que há algo de podre no Reino do Brasil, todos sabemos, mas dificilmente saciaremos nosso apetite por punições e interrupção dos acordos.
Sua habilidade para lidar com vespeiros não deve ser menosprezada. Ele é hábil, competente, possui informações privilegiadas e comprometedoras sobre muitos que ainda não foram denunciados. Enquanto o fogo arde em Brasília e na CPI da Covid, e os pobres mortais se alegram com a possibilidade de que o governo se desmanche, as narrativas são construídas e as estratégias políticas e jurídicas formatadas.
Ainda não sabemos o que de fato acontecerá. Por ora, contentemo-nos com o conta-gotas da CPI a nos distrair, alimentando sonhos e esperanças de que haverá justiça.
Talvez as ruas possam definir os rumos e declarar que chegou a hora do Impeachment que o Congresso e os verdadeiros donos do poder ainda acham cedo para acontecer.