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Pós-doutora em Saúde Coletiva (UFRJ), doutora em Bioética (UnB), mestre em Direito (FDV) e coordenadora do doutorado em Direito da FDV

Democracia: a emoção e a razão tomam conta das ruas

Ao tomar as ruas no último sábado, de forma ordeira, pacífica e organizada, o povo mandou seu recado à classe política

Publicado em 06/07/2021 às 02h00
Protesto contra o presidente Jair Bolsonaro em Vitória. Manifestantes saíram em passeata da UFES com destino à Reta da Penha.
Protesto contra o presidente Jair Bolsonaro em Vitória, no dia 3 de julho. Crédito: Vitor Jubini

Quando a razão e a emoção se encontram nas ruas para um exercício de celebração da democracia e de repúdio às manifestações autoritárias, violentas e perversas do poder estatal, a esperança parece renascer ante os sinais evidentes de que o povo ainda não abriu mão de sua soberania. Ele grita, com voz contundente, que a vontade popular deve prevalecer sempre e que os abusos não serão tolerados.

Ao tomar as ruas no último sábado (3), de forma ordeira, pacífica e organizada, o povo mandou seu recado à uma classe política que se locupleta de forma despudorada da riqueza da nação enquanto o povo morre de fome e de Covid para sustentar a ganância insaciável daqueles que deveriam cuidar dos interesses públicos e não de seus próprios negócios.

A Ágora, lugar da cidadania e da política na Grécia antiga, espaço onde o povo se reunia para debater e decidir seu próprio destino, ainda que em uma incipiente concepção de democracia, já que não participavam todos do banquete democrático, ficando de fora mulheres e escravos, talvez ainda se encontre como desejo de liberdade e autonomia em nosso DNA. Como memória histórica a nos lembrar que o Estado Moderno, tal qual o concebemos, como caminho único possível para o exercício da democracia em um mundo complexo, concepção agora mais elaborada e sofisticada de democracia, não pode prescindir das ruas como demonstração da vontade e da força popular, soberania plena e inquestionável.

A rua como espaço de liberdade, lugar de encontro, de manifestação de ideias, de prática dialógica, da defesa de causas, sejam elas humanitárias ou de minorias e de excluídos, precisa ser vivenciada como exercício pedagógico para a construção de uma democracia plena, sadia, forte e pujante, a nos lembrar que a soberania é do povo e que a classe política existe para representá-lo e não para representar a si mesma e aos seus correligionários.

O presidente incorruptível, íntegro, amado, blindado e defendido como mito e causídico da família, da moral, da fé cristã, e da economia, “o melhor presidente que o Brasil já teve” como se manifestam ainda alguns, se desnuda agora deixando à mostra seu real caráter.

Não era terraplanismo, negacionismo, combate pueril à ciência. Era negócio pesado, forjado dentro de um projeto econômico sofisticado, que se utiliza da política, gestado pelos mesmos grupos que dominam o parlamento, utilizando-se de senadores, deputados e do Executivo para o alcance de seus objetivos.

São negócios bilionários, tramados e orquestrados pelas mesmas figuras, verdadeiras organizações criminosas que permanecem no poder, transitando pelos espaços por onde é possível fazer escorrer os recursos públicos

Enquanto em Brasília figuras como Ricardo Barros e tantos outros conhecidos nossos se movimentam com agilidade,   se apropriando da nação, com a visão embaçada e obscurecida pelo preconceito, muitos fecham olhos e ouvidos em uma cegueira e surdez intelectiva, se deixando envergonhar, apequenar, enquanto são conduzidos ao matadouro, juntamente com os seus, servindo a um projeto de genocídio comandado por uma elite perversa e atrasada.

Nunca como agora as ruas se mostraram tão necessárias e indispensáveis à democracia. Ou vamos a elas, agora, e mostramos a força da revolta e da não aceitação do projeto que nos está sendo imposto, ou perderemos o tempo correto de nos manifestarmos.

O destempero presidencial diante da pujante manifestação vinda das ruas no último dia 3 de julho, com ameaças de golpe e tentativas intimidatórias, são sinais evidentes do receio aterrorizante que as ruas parecem provocar nos políticos.

Enquanto Bolsonaro reage com ataques verbais ao STF e ao povo, típicos de governos ditatoriais que desprezam a democracia e têm aversão ao povo, no parlamento, deputados e senadores, observam as ruas e começam a refletir que talvez não seja mais possível esticar a corda ignorando as dezenas de pedidos de impeachment que se avolumam e que agora compõem o superimpeachment.

Nossa democracia pressupõe respeito às instituições, ao princípio da Separação de Poderes, à verdade e ao povo. E o povo se manifesta nas ruas dizendo "basta".

Nas ruas, enquanto o povo se movimenta e se manifesta com palavras de ordem, o banquete democrático está sendo servido.

É chegada a hora de voltar a sentir o gosto e o prazer da democracia em festa. Vamos todos às ruas enquanto é tempo.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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