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Advogado especialista em Direito Empresarial, professor universitário, doutor em Direito e mestre em Educação e Comunicação

Não! Aquilo não era um desembargador nem um engenheiro civil

Este “sujeito” não humilhou o guarda municipal porque é desembargador. Ele o fez porque é um brasileiro deformado moralmente, que faria a mesma coisa fosse médico, advogado, vendedor, carpinteiro ou até mesmo engenheiro civil

Publicado em 23/07/2020 às 05h01
Atualizado em 23/07/2020 às 08h56
Mulher ofende fiscal da Prefeitura do Rio
Mulher ofende fiscal da Prefeitura do Rio . Crédito: Reprodução/TV Globo / Estadão

Conta-se que Alexander Graham Bell, ao realizar o primeiro teste bem-sucedido com o recém inventado telefone, perguntou ao amigo Thomas Watson do outro lado da linha: “O senhor está me ouvindo?”. Ao que o amigo respondeu: “Estou ouvindo, mas não acredito!”. Pois é, foi exatamente assim que me senti ao ouvir e ver o vídeo do senhor Eduardo Siqueira - que só por acaso é desembargador – chamando de analfabeto um Guarda Civil Municipal e rasgando a multa que lhe foi aplicada por não utilizar máscara.

Em outro vídeo, o mencionado senhor, extrapolando o ridículo, dirige-se ao policial e arranha algumas palavras em francês (mas parecido com javanês), na tentativa de mostrar superioridade intelectual. Não, definitivamente este “sujeito” não fez isto porque é desembargador. Desembargadores não fazem isso! Ele o fez porque é um brasileiro deformado moralmente, complexado e desavisado sobre a Proclamação da República. Ele faria a mesma coisa fosse médico, advogado, vendedor, carpinteiro ou até mesmo engenheiro civil.

Sabem como eu sei disso? Primeiro, eu convivo com magistrados de todas as instâncias, e posso certificar que, com raras exceções, são pessoas extremamente contidas e educadas no trato social, evitando, no mais das vezes, a identificação pelo cargo. Mas há outra razão mais forte pela qual eu sei que o “infeliz” teria feito o mesmo fosse qual fosse a sua profissão.

Basta retroceder 15 dias e presenciar o diálogo, dantesco, entre um casal e um fiscal no Rio de Janeiro. Homem: "Não vai falar com o seu chefe, não?". Mulher: "A gente paga você, filho. O seu salário sai do meu bolso". Homem: "Cadê a sua trena? Quero saber como você mediu sem trena". Fiscal: "Tá, cidadão". Mulher, balançando a cabeça lateralmente de forma pernóstica: "Cidadão não. Engenheiro civil, formado. Melhor do que você". Cho-can-te!

O nosso grande antropólogo Roberto da Damatta dedicou a obra “Carnavais, Malandros e Heróis”, ainda no final da década de 1970, dentre outras coisas, à análise do também nosso “sabe com quem está falando?”. Fica claro que é um traço da identidade nacional, “polida” com a passagem do tempo, mas que está permanece quase sempre de forma silenciosa.

Damatta, comentando o episódio recente, disse que “para o brasileiro, obedecer é sinal de inferioridade”. O curioso é que não se trata de obedecer “ao outro”, o sentimento é o mesmo quando se trata de obedecer a lei. É como se “a lei” fosse para os outros e para nós houvesse a “privilege” ou lei privada/particular!

Uma colega do aludido senhor (dito desembargador) disse que ele era uma “figura desprezível”. Não acho. Não há como desprezar algo assim. É preciso puni-lo, exemplarmente, como ação afirmativa para que se abra uma frincha capaz de trazer à luz a nova identidade nacional. Ou repetiremos eternamente a profecia de Chico: “Agora já não é normal; O que dá de malandro regular profissional; malandro com aparato de malandro oficial; malandro candidato a malandro federal; malandro com contrato, com gravata e capital; Que nunca se dá mal”.

A utopia é construir uma sociedade onde o político, o padre, o juiz ou o engenheiro civil que descumprirem a lei possam se “dar mal”. Do contrário, bem nos servirá a carapuça de “República das Bananas”!

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